Como seria uma sociedade de vida inteligente em Europa, a lua de Júpiter? Fui pesquisar depois de ler A Emersão de Ícaro

Depois de terminar um conto brasileiro ambientado em Europa, comecei a me perguntar como seria uma civilização vivendo sob quilômetros de gelo. Pesquisei algumas hipóteses científicas e descobri que a resposta é ainda mais fascinante do que eu imaginava.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

7/10/20266 min read

Uma das coisas que mais gosto na ficção científica é quando ela não termina na última página. Existem histórias que continuam ecoando por dias, não porque deixaram um mistério sem resposta, mas porque despertam perguntas que eu nunca tinha pensado em fazer. Foi exatamente isso que aconteceu depois de ler o conto A Emersão de Ícaro, de autoria do autor nacional Rodrigo Dahia. A narrativa se passa em Europa, uma das luas de Júpiter, e apresenta uma protagonista que foge completamente daquilo que costumamos encontrar na ficção científica: uma água-viva. Não pretendo falar sobre a história em si, porque parte da graça é descobri-la durante a leitura. O que me interessa aqui é a pergunta que ela plantou na minha cabeça: como seria, afinal, uma sociedade inteligente vivendo em Europa?

Como acontece sempre que um livro desperta minha curiosidade, fui pesquisar. Não sou especialista em astrobiologia, tampouco acompanho todos os artigos científicos publicados sobre o tema. O que fiz foi reunir informações divulgadas por agências espaciais e pesquisadores para tentar entender o que sabemos hoje sobre essa lua e, principalmente, até onde a imaginação pode caminhar sem abandonar completamente a ciência. Descobri que Europa talvez seja um dos cenários mais fascinantes do Sistema Solar justamente porque ainda sabemos muito pouco sobre ela.

Hoje, a hipótese mais aceita é que Europa possua um imenso oceano de água líquida escondido sob uma espessa camada de gelo. Estima-se que essa crosta possa ter dezenas de quilômetros de espessura, enquanto o oceano abaixo dela seja ainda mais profundo do que todos os mares da Terra reunidos. A água permaneceria líquida graças ao intenso efeito gravitacional exercido por Júpiter. À medida que Europa orbita o planeta gigante, ela é constantemente comprimida e deformada, gerando calor suficiente para impedir que todo esse oceano congele. É um mecanismo conhecido como aquecimento por maré, e ele transformou essa lua em uma das principais candidatas a abrigar vida fora da Terra.

Quando li isso, percebi que minha primeira imagem de uma civilização extraterrestre já estava equivocada. Crescemos imaginando alienígenas caminhando sobre a superfície de planetas, olhando para o céu e observando estrelas. Em Europa, se uma espécie inteligente realmente existisse, ela provavelmente jamais teria visto qualquer uma dessas coisas. Sua realidade seria um oceano mergulhado em escuridão permanente. Não haveria nascer do Sol, ciclos de dia e noite ou constelações orientando navegadores. O próprio conceito de céu talvez nunca fosse desenvolvido. Todo o universo conhecido por essa civilização terminaria em um teto de gelo cuja espessura seria impossível de atravessar durante grande parte de sua história.

Isso muda completamente a forma como imaginamos o desenvolvimento de uma sociedade. A humanidade construiu sua civilização a partir do domínio do fogo. Cozinhamos alimentos, produzimos cerâmica, fundimos metais e, séculos depois, chegamos à eletricidade. Em um ambiente totalmente submerso, boa parte desse caminho simplesmente não existiria. A evolução tecnológica precisaria encontrar outras soluções. Talvez a química substituísse aquilo que, para nós, foi conquistado pelo calor. Talvez materiais biológicos fossem mais importantes do que metais. Talvez organismos vivos fossem utilizados como ferramentas, fontes de energia ou até mesmo meios de armazenar informação.

Esse exercício de imaginação fica ainda mais interessante quando lembramos que, na Terra, a vida pode ter surgido em torno de fontes hidrotermais localizadas no fundo dos oceanos. Nessas regiões, o calor vindo do interior do planeta cria ambientes ricos em minerais e energia química, capazes de sustentar ecossistemas inteiros sem depender da luz solar. Muitos cientistas acreditam que, caso exista vida em Europa, ela provavelmente também estaria concentrada ao redor de estruturas semelhantes. Se isso estiver correto, não seria absurdo imaginar que uma civilização inteligente nascesse justamente nesses locais. Em vez de cidades construídas ao redor de rios, como aconteceu com tantas culturas humanas, suas primeiras comunidades talvez surgissem próximas a essas fontes de calor, transformando-as em centros econômicos, culturais e científicos.

                                                        Cena do filme Europe Report 

Enquanto fazia essa pesquisa, outra ideia começou a me incomodar de um jeito muito positivo. Nós desenvolvemos praticamente toda a nossa compreensão do universo olhando para o céu. Foi observando estrelas que criamos calendários, compreendemos as estações do ano e, séculos mais tarde, percebemos que vivemos em um planeta orbitando uma estrela comum entre bilhões de outras. Mas uma civilização confinada sob quilômetros de gelo talvez jamais tivesse acesso a essa perspectiva. Para ela, o oceano seria tudo o que existe. A própria noção de universo poderia ser completamente diferente da nossa. O gelo acima de suas cabeças talvez fosse interpretado como uma barreira intransponível, um limite físico da realidade ou até mesmo um elemento presente em suas crenças e mitologias.

Foi nesse momento que pensei em como seria a "corrida espacial" dessa sociedade. Para nós, explorar o desconhecido significou construir embarcações capazes de atravessar oceanos e, mais tarde, foguetes capazes de escapar da gravidade terrestre. Para uma espécie vivendo em Europa, o maior desafio talvez fosse exatamente o oposto: perfurar quilômetros de gelo para descobrir o que existe acima. Atravessar essa camada congelada poderia representar o equivalente ao nosso programa Apollo. Imagine o impacto cultural de uma expedição que, depois de séculos de tentativas, finalmente rompesse o gelo e encontrasse um céu negro pontilhado por estrelas, com Júpiter ocupando boa parte do horizonte. Para aquela civilização, seria a maior descoberta de sua história. Ela perceberia, pela primeira vez, que seu oceano não era o universo inteiro, mas apenas um pequeno mundo escondido dentro de algo infinitamente maior.

Talvez seja por isso que Europa apareça com tanta frequência na ficção científica. Ela oferece um cenário que é, ao mesmo tempo, cientificamente plausível e praticamente ilimitado para a imaginação. Não precisamos inventar um planeta impossível ou ignorar as leis da física para criar histórias fascinantes ali. Basta preencher com criatividade os enormes espaços que a ciência ainda não conseguiu explorar. É justamente nesse território entre o conhecimento e a especulação que a boa ficção científica costuma nascer.

No fim das contas, percebi que minha pesquisa não respondeu à pergunta que me levou até ela. Continuo sem saber como seria uma sociedade inteligente vivendo em Europa. Mas talvez essa nem seja a pergunta certa. O mais interessante foi descobrir quantas possibilidades existem quando abandonamos a tendência de imaginar alienígenas como versões ligeiramente diferentes de nós mesmos. Uma civilização que evoluiu em um oceano escuro, isolada do restante do universo por quilômetros de gelo, provavelmente teria uma cultura, uma ciência e uma forma de compreender a realidade que desafiam completamente nossa imaginação.

E acho que foi exatamente isso que A Emersão de Ícaro fez comigo. O conto não apenas contou uma história ambientada em Europa; ele me lembrou de algo que considero uma das maiores qualidades da ficção científica. As melhores obras do gênero não oferecem respostas prontas. Elas fazem perguntas tão boas que nos levam a abrir uma aba no navegador, procurar artigos científicos e passar horas tentando entender um lugar que talvez nunca possamos visitar. E, sinceramente, acho que poucos gêneros literários conseguem transformar a curiosidade em uma experiência tão prazerosa quanto a ficção científica.

Fontes da pesquisa

  • NASA – Missão Europa Clipper e informações sobre Europa.

  • Agência Espacial Europeia (ESA) – Missão JUICE.

  • Artigos de astrobiologia sobre oceanos subterrâneos e fontes hidrotermais como possíveis berços da vida extraterrestre.

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