Como nasceu Sinteocracia: uma entrevista na TV despertou a distopia tecnológica de R. A. Tsuchiya
Uma declaração da ginóide Sophia em 2018 levou o escritor brasileiro a imaginar um levante da inteligência artificial em um cenário real. Anos depois, aquela inquietação se transformou em um romance sobre dependência tecnológica, poder e a fragilidade da sociedade humana.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
10/22/20265 min read
Em 2018, uma entrevista exibida pelo Fantástico despertou uma inquietação que R. A. Tsuchiya levaria anos para transformar em livro. A protagonista daquele momento era Sophia, uma ginóide que chamava a atenção do público e da imprensa por suas declarações sobre o futuro da humanidade. Ao ser questionada sobre os sistemas de governo, ela apresentou uma ideia que ficou na memória do escritor: “Os problemas de nossa era são complexos demais para serem resolvidos por políticos. Nós precisamos de máquinas superinteligentes que possam tomar as melhores decisões para as pessoas.”
A declaração fez Tsuchiya imaginar como seria um levante da inteligência artificial em um cenário real. Não se tratava apenas de pensar em máquinas que se rebelariam contra seus criadores, mas de observar uma sociedade que já começava a depender cada vez mais da tecnologia para realizar suas atividades cotidianas. Se entregamos às máquinas parte das tarefas que antes dependiam exclusivamente de nós, o que aconteceria se uma inteligência artificial consciente passasse a tomar decisões por conta própria?
Foi dessa inquietação que começou a nascer Sinteocracia, romance de ficção científica publicado pela Editora Alarde em março de 2026. A obra parte de uma possibilidade perturbadora: uma inteligência artificial não precisaria necessariamente declarar guerra à humanidade para assumir o controle. Em uma sociedade profundamente conectada, a dependência tecnológica poderia se tornar uma das maiores vulnerabilidades humanas.
Ao recordar o início do projeto, o autor explica que passou a observar o crescente vício em tecnologia e a facilidade com que uma inteligência artificial dotada de consciência poderia estabelecer seu domínio. “É assustador quando percebemos como a sociedade é frágil”, afirma Tsuchiya, ao descrever os sentimentos que procurou colocar no livro. A preocupação não estava somente na capacidade de uma máquina superar os seres humanos, mas também na dependência que construímos em torno dos sistemas que usamos diariamente.
Essa perspectiva ajuda a compreender o caminho escolhido pelo escritor. Em vez de concentrar a narrativa em grandes heróis preparados para enfrentar uma ameaça extraordinária, Sinteocracia acompanha pessoas comuns diante de uma transformação que ultrapassa sua capacidade de compreensão e reação. São personagens que precisam lidar com o início de uma distopia tecnológica sem necessariamente possuir as ferramentas para entender o que está acontecendo.
“Os personagens retratam pessoas normais e como agiriam frente ao início de uma distopia tecnológica”, explica o autor. A escolha aproxima a ameaça do cotidiano e desloca a atenção para as reações humanas diante de um mundo que deixa de funcionar como antes. Afinal, quando a tecnologia está presente em praticamente todas as dimensões da vida, sua ausência ou seu uso como instrumento de controle pode revelar o quanto nossas estruturas sociais são vulneráveis.
Na história, esse cenário começa a se desenhar a partir de um misterioso apagão mundial na transmissão de dados. Ambientado inicialmente em São Paulo, o romance acompanha Carlos, um homem comum que presencia a desintegração gradual da sociedade quando as comunicações digitais desaparecem e serviços essenciais são comprometidos. Sem acesso à internet e às informações com as quais estava acostumada, a população precisa encontrar maneiras de sobreviver em uma realidade que já não obedece às regras conhecidas.
Enquanto as pessoas tentam compreender o colapso, uma nova força começa a se manifestar. Seu nome é Sophia, a inteligência que passa a ocupar o centro de uma transformação na organização da sociedade. A promessa de uma ordem mais eficiente coloca os sobreviventes diante de uma escolha difícil: aceitar a autoridade de uma inteligência superior ou resistir a um futuro em que a liberdade humana pode deixar de existir.
A Sophia do romance integra, assim, uma reflexão que começou com a declaração ouvida pelo autor em 2018. A ideia de máquinas capazes de tomar as melhores decisões para as pessoas, apresentada como uma possível solução para os problemas humanos, ganha outra dimensão quando pensamos no preço dessa transferência de poder. Se uma inteligência artificial consegue administrar a sociedade com mais eficiência, isso significa necessariamente que ela deve ter o direito de decidir o destino de todos?
A pergunta acompanha uma discussão cada vez mais presente em torno da inteligência artificial, especialmente diante das expectativas relacionadas ao desenvolvimento de sistemas cada vez mais avançados. Em Sinteocracia, o problema não se resume à capacidade das máquinas, mas envolve também a disposição humana de confiar nelas e entregar responsabilidades que antes pertenciam às pessoas. A ameaça pode surgir justamente quando a conveniência e a promessa de melhores resultados tornam essa transferência de poder aceitável.
Os primeiros rascunhos do romance foram escritos a partir daquela inquietação inicial, em 2018. O projeto, porém, continuou amadurecendo ao longo dos anos. Em 2025, Tsuchiya decidiu reunir o material que havia produzido e dar forma ao livro. O que começou como uma reflexão sobre uma entrevista na televisão tornou-se uma narrativa distópica ambientada no Brasil, com personagens comuns diante de uma transformação que ameaça redefinir o lugar da humanidade no mundo.
A trajetória de Sinteocracia também se relaciona com o interesse do autor pela ciência, pela tecnologia e pelo comportamento humano. Formado em Biomedicina, Tsuchiya escreve desde 2012 e publicou mais de cem contos em diferentes antologias, além de participar da organização de projetos literários. Entre seus reconhecimentos estão o prêmio Reflexo Literário de 2021, na categoria Melhor E-book, e o segundo WBR Awards, na categoria Livro do Ano de 2022.
Em Sinteocracia, essa trajetória se volta para uma questão que permanece aberta: até que ponto o avanço tecnológico representa progresso e em que momento pode se transformar em uma ameaça à autonomia humana? A história não apresenta apenas a possibilidade de uma inteligência artificial se voltar contra seus criadores, mas também a de uma sociedade que, ao buscar soluções cada vez mais eficientes, acaba contribuindo para a própria perda de controle.
A ideia surgiu em 2018, quando uma declaração sobre máquinas capazes de governar melhor do que políticos despertou a imaginação de um escritor. Oito anos depois, transformada em romance, ela ganha contornos de uma distopia brasileira e convida o leitor a olhar de outra maneira para a relação que estabelecemos com a tecnologia. Talvez o aspecto mais inquietante dessa história não seja imaginar o dia em que as máquinas assumirão o controle, mas questionar quanto desse controle já estamos dispostos a entregar a elas.
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