COMO NASCEU ESSE SCI-FI: Psicotrópicos de Capricórnio na Ilha da Trindade

Sempre que estamos lendo um livro de ficção científica, nos perguntamos: ''como o autor pensou nisso?'' E esse quadro é justamente para trabalhar a origem das ideias dos nossos livros da sci-fi nacional. Como nasceu esse?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

6/5/20263 min read

Muitas histórias de ficção científica nascem de uma pergunta sobre o futuro. Outras surgem de uma descoberta científica, de uma hipótese tecnológica ou de uma observação sobre o presente. Psicotrópicos de Capricórnio na Ilha da Trindade parece ter seguido um caminho diferente: nasceu de uma transformação profundamente humana.

Enquanto aguardava o nascimento do primeiro filho, seu autor se viu diante de uma mudança inevitável. Em pouco tempo, deixaria de ocupar o papel de quem recebe cuidado para assumir a responsabilidade de cuidar de outra vida. A chegada da paternidade trazia entusiasmo, mas também uma inquietação difícil de ignorar: o fim de uma fase marcada pela individualidade. Nada mais seria exclusivamente sobre ele.

Essa angústia encontrou terreno fértil em outra obsessão pessoal: a Ilha da Trindade.

Localizada a mais de mil quilômetros da costa brasileira, a ilha vulcânica serviu como cenário real para uma experiência que marcou profundamente o autor. Em 2008, ele passou 75 dias no local trabalhando junto ao Projeto Tamar, monitorando ninhos de tartarugas-marinhas. A rotina envolvia caminhadas por paisagens que parecem pertencer a outro planeta, trilhas em regiões isoladas, noites observando animais gigantes emergirem do mar e, ocasionalmente, encontros com luzes misteriosas cruzando o céu.

É difícil não perceber como um lugar assim acaba contaminando a imaginação. A Ilha da Trindade já possui, por si só, uma atmosfera que parece saída da ficção científica. Rochas vulcânicas, isolamento extremo, natureza exuberante e relatos de fenômenos inexplicáveis formam o tipo de cenário onde qualquer visitante poderia começar a imaginar o impossível.

Foi da colisão entre esses dois mundos — a ansiedade da paternidade e as memórias de um dos lugares mais remotos do Brasil — que nasceu Psicotrópicos de Capricórnio na Ilha da Trindade.

Embora apresente uma invasão alienígena em escala global, o romance parece menos interessado nas naves e mais interessado nas pessoas que vivem à sombra delas. Em vez de acompanhar presidentes, cientistas ou militares de alta patente, a história volta seu olhar para indivíduos comuns tentando sobreviver em meio ao extraordinário.

A própria premissa sugere isso. Enquanto o mundo observa a chegada dos extraterrestres, um cozinheiro de posto militar enxerga os invasores apenas como mais um tipo de chefe. Já o protagonista, um homem cínico e desiludido, vê seu encontro com o filho prestes a nascer ser ameaçado pelos acontecimentos globais. A invasão acaba funcionando não apenas como um evento cósmico, mas como um catalisador para mudanças pessoais.

O autor também utiliza a presença alienígena para explorar ideias clássicas da ficção científica. Alterações estranhas na fauna local, organismos impossíveis surgindo na natureza e reflexões sobre o abismo tecnológico entre a humanidade e uma civilização avançada apontam para um cenário em que a própria ordem natural das coisas começa a se desfazer. Ao mesmo tempo, temas como individualidade, consciência coletiva e percepção da realidade ganham novas camadas através de um protagonista habituado a alterar sua visão do mundo por meio de substâncias psicoativas.

Talvez seja justamente essa mistura improvável que torne a origem do livro tão interessante. Psicotrópicos de Capricórnio na Ilha da Trindade nasceu de uma experiência muito particular, mas dialoga com questões universais: o medo da mudança, a responsabilidade diante de uma nova vida e a sensação de que existem forças muito maiores do que nós moldando nosso destino.

E a jornada pela Ilha da Trindade não termina no romance. Em breve, os leitores poderão revisitar esse universo através de uma história em quadrinhos ilustrada por Marcos Caldas, ambientada durante os eventos do livro, mas sob a perspectiva de um ex-Capacete Azul da ONU marcado pelos traumas da guerra. Segundo o autor, a HQ funciona de forma independente, mas reserva referências especiais para quem já conhece a obra original.

No fim das contas, a pergunta "como nasceu esse sci-fi?" talvez tenha uma resposta simples: nasceu quando um homem prestes a se tornar pai olhou para uma ilha que parecia pertencer a outro mundo e percebeu que as maiores transformações nem sempre vêm do espaço.

Esse artigo foi produzido através do relato do autor Luis Felipe Mayorga sobre como nasceu sua obra de ficção científica intitulada Psicotrópicos de Capricórnio na Ilha da Trindade. Esse é um trabalho sem fins lucrativos, sem teor de análise da obra, existindo apenas para divulgar os inúmeros autores e autoras da nossa sci-fi nacional. Quer participar? Mande um e-mail para contato@umleitordescifi.com.br contando como nasceu a ideia da sua história. 

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