COMO NASCEU ESSE SCI-FI: Biotecnosfera
Sempre que estamos lendo um livro de ficção científica, nos perguntamos: ''como o autor pensou nisso?'' E esse quadro é justamente para trabalhar a origem das ideias dos nossos livros da sci-fi nacional. Como nasceu esse?
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
6/15/20263 min read
A ficção científica costuma ser associada a naves espaciais, robôs e tecnologias impossíveis. Mas, às vezes, ela nasce de algo muito mais próximo: uma preocupação que não sai da cabeça.
No caso de Biotecnosfera, tudo começou durante a pandemia de COVID-19.
Enquanto o mundo tentava entender um vírus novo e se adaptar a uma realidade incerta, o autor se viu refletindo sobre outro tipo de catástrofe. Não uma doença que atacasse o corpo, mas algo que atingisse a própria vontade de continuar vivendo. Em meio a notícias sobre crise climática, desigualdade crescente e um sentimento generalizado de insegurança em relação ao futuro, surgiu uma pergunta perturbadora: e se a próxima pandemia fosse uma pandemia de suicídios?
A ideia era sombria, mas não surgiu do nada. Ela refletia o clima daqueles anos e também um estado de espírito compartilhado por muita gente que observava o mundo com preocupação. Ao mesmo tempo, o autor carregava um desejo antigo: escrever um livro que permitisse discutir alguns dos temas que mais gosta de estudar, como economia, política e filosofia.
O desafio era encontrar uma forma de juntar tudo isso.
A solução apareceu na própria tradição das grandes discussões filosóficas. Inspirado por obras como O Banquete, de Platão, ele imaginou uma narrativa construída a partir do debate de ideias. Começou a escrever. As páginas se acumularam. Cento e oitenta delas, para ser exato.
E então o projeto travou.
A história cresceu demais. Os temas se multiplicaram. O livro parecia cada vez mais distante de uma conclusão. Em algum momento, veio o desânimo e o manuscrito acabou abandonado.
Muitos projetos literários terminam assim.
Mas esse não.
Cinco anos depois, o mundo era outro.
As inteligências artificiais haviam deixado de ser uma promessa distante para ocupar espaço nas conversas, no trabalho, na arte e na vida cotidiana. Foi nesse contexto que o autor resolveu fazer uma experiência curiosa: conversar com as principais IAs disponíveis como se estivesse falando com pessoas.
A primeira pergunta era simples.
Se fossem humanas, que nome escolheriam para si?
Depois vieram as questões mais complexas. Como reconstruir uma sociedade após um colapso global? O que fazer diante da crise climática? Como lidar com desigualdade, automação e desemprego? Que tipo de mundo deveria surgir das ruínas do atual?
O experimento despertou uma dúvida: se uma inteligência artificial participasse da criação de uma nova civilização, que ideias ela defenderia?
Foi aí que as duas histórias se encontraram.
O livro abandonado em 2020 ganhou uma nova vida quando passou a incorporar essas interações. O autor reorganizou a estrutura da obra, criou uma linha do tempo, desenhou instituições e imaginou um mundo tentando se reerguer após um colapso global.
Em vez de acompanhar heróis salvando a humanidade, Biotecnosfera coloca seus personagens em torno de uma mesa de debates. A trama se desenvolve como uma assembleia responsável por planejar uma nova sociedade. E existe um detalhe que torna o projeto particularmente singular: parte das vozes presentes nessas discussões nasceu justamente das conversas que o autor manteve com inteligências artificiais.
Claro, não se trata de um livro "escrito por IA". As respostas foram editadas, adaptadas e moldadas para servir à narrativa planejada, mas mantendo as 'ideias' proposta pela IA. Mas a experiência ajudou a construir perspectivas, conflitos e argumentos que acabaram se tornando parte da obra.
Talvez seja isso que torne a origem de Biotecnosfera tão interessante.
O livro nasceu em um período marcado pelo medo de colapsos. Primeiro, o colapso emocional que parecia rondar uma sociedade exausta. Depois, o colapso ambiental, econômico e político que tantas vezes aparece nas discussões sobre o futuro. E, no meio desse processo, surgiu uma ferramenta que até pouco tempo atrás existia apenas na própria ficção científica.
No fim das contas, Biotecnosfera parece ter sido criado exatamente na fronteira entre duas épocas: uma em que imaginávamos inteligências artificiais e outra em que passamos a conversar com elas.
E talvez essa seja a pergunta central que move a obra: quando chegar a hora de reconstruir o mundo, quem estará sentado à mesa para decidir o que vem depois?
Esse artigo foi produzido através do relato do autor Lucas Araújo sobre como nasceu sua obra de ficção científica intitulada Biotecnosfera. Esse é um trabalho sem fins lucrativos, sem teor de análise da obra, existindo apenas para divulgar os inúmeros autores e autoras da nossa sci-fi nacional. Quer participar? Mande um e-mail para contato@umleitordescifi.com.br contando como nasceu a ideia da sua história.
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