Como as leituras coletivas ampliaram meu repertório de ficção científica

Como as leituras coletivas me ajudaram a sair da zona de conforto, descobrir novos autores e ampliar meu repertório dentro da ficção científica, especialmente a nacional.

HENRIQUE SANCHES

9/27/20266 min read

Alguns dos melhores livros de ficção científica que li nos últimos anos eu conheci por causa de uma leitura coletiva.

Pera.

Não foi por causa de uma leitura coletiva. Foi por causa de várias.

E talvez essa seja uma das coisas que eu mais gosto nas LCs.

Você entra para ler um livro e, quando percebe, está diante de uma lista inteira de autores, obras e possibilidades que provavelmente nunca teriam aparecido na sua estante por conta própria.

O problema de escolher sozinho

Eu gosto muito de escolher meus próprios livros. Aliás, gosto tanto que talvez exista aí um pequeno problema.

Quando você conhece seus autores favoritos, seus gêneros preferidos e os temas que normalmente despertam seu interesse, é muito fácil construir uma zona de conforto literária.

Você sabe o que gosta. Procura algo parecido. Encontra outro livro parecido.

E depois outro. Quando percebe, está sempre circulando por territórios conhecidos.

Isso pode ser ótimo. Mas também pode ser uma armadilha.

E a ficção científica é especialmente interessante nesse aspecto.

Nós conhecemos alguns dos grandes nomes do gênero.

Isaac Asimov.

Frank Herbert.

Arthur C. Clarke.

Philip K. Dick.

Ursula K. Le Guin.

São autores fundamentais e existem bons motivos para que seus livros tenham atravessado gerações.

Mas a ficção científica é muito maior do que seus clássicos mais conhecidos.

É muito maior do que os grandes sucessos adaptados para o cinema e as séries.

E é muito maior do que aquilo que costuma aparecer primeiro quando alguém diz:

“Eu quero começar a ler ficção científica.”

Foi justamente aí que as leituras coletivas começaram a mudar minha relação com o gênero.

A LC como máquina de descoberta

Uma das grandes vantagens de participar de uma leitura coletiva é que você acaba lendo coisas que provavelmente não escolheria sozinho.

Às vezes o livro foi indicado por alguém. Às vezes o grupo votou.

Às vezes existe um tema. Às vezes você simplesmente entrou na brincadeira.

E, de repente, lá está você lendo um livro que nunca teria colocado na sua lista.

Alguns eu nem sabia que existiam. Outros eu conhecia de nome, mas nunca tinha demonstrado interesse suficiente para procurar.

E teve até aqueles casos em que eu sabia que o livro era ficção científica, mas não tinha a menor vontade de conhecê-lo. Até a leitura coletiva me empurrar para ele.

E ainda bem. Porque foi assim que alguns livros entraram para o meu repertório.

Uma pequena lista de grandes descobertas

Se eu parar para lembrar das leituras coletivas que fiz, consigo montar uma lista com pelo menos dez livros que provavelmente não teriam chegado até mim da mesma maneira. E já aviso: provavelmente existem outros.

Estou escolhendo esses de cabeça.

Piquenique na Estrada, de Arkádi e Boris Strugátski.

Uma história que me levou para uma ficção científica muito diferente daquela que eu estava acostumado a encontrar.

Flores para Algernon, de Daniel Keyes.

Talvez uma das descobertas mais curiosas.

Eu conhecia o título, mas não imaginava que a obra pudesse ser lida dentro da ficção científica.

E foi justamente uma LC que me colocou diante dela.

Senciente Nível, de Carol Chiovatto.

E aqui aparece outra coisa que considero fundamental nas leituras coletivas: elas também podem funcionar como portas de entrada para a ficção científica nacional.

A Última Transmissão, de Juza Unno.

Mais uma descoberta que dificilmente teria entrado no meu radar da mesma maneira.

Despertar, de Octavia Butler.

Uma autora que acabou ampliando ainda mais minha percepção sobre as possibilidades da ficção científica.

Meio-Norte 2B84, de Thaís Nunes.

Mais uma obra brasileira que entrou no meu caminho por causa de uma leitura coletiva.

2BR02B: Ser ou Nada Ser, de Kurt Vonnegut.

Uma dessas experiências que mostram como a ficção científica pode ser curta, provocadora e ainda assim deixar muita coisa para discutir.

QualityLand, de Marc-Uwe Kling.

Uma descoberta que mistura ficção científica, tecnologia, sociedade e humor de uma maneira bastante particular.

Dormir em um Mar de Estrelas, de Christopher Paolini.

Um daqueles livros que provavelmente não teria escolhido naquele momento, mas que acabou chegando até mim pela dinâmica de uma leitura coletiva.

E, entre as leituras mais recentes, duas que representam muito bem esse processo de sair da zona de conforto:

Tédio Terminal, de Izumi Suzuki e Kallocaína, de Karin Boye.

Duas experiências bastante diferentes, mas que me fizeram perceber mais uma vez como é interessante deixar que outras pessoas escolham, pelo menos de vez em quando, o caminho da nossa leitura.

E talvez seja esse o verdadeiro valor de uma LC

Uma leitura coletiva não entrega apenas um livro. Ela pode entregar repertório.

Você lê porque alguém indicou. Porque o grupo escolheu. Porque ficou curioso.

Porque aceitou um desafio. Ou simplesmente porque pensou:

“Bom... já estou aqui mesmo. Vamos ver no que dá.”

E, de repente, descobre um autor que não conhecia. Um país que nunca tinha explorado literariamente. Uma forma diferente de escrever ficção científica.

Um subgênero que nunca tinha despertado sua atenção. Uma discussão que não esperava ter. Ou até uma história que você termina pensando:

“Por que eu nunca tinha lido isso antes?”

Para mim, esse é um dos grandes méritos das leituras coletivas.

Elas criam uma espécie de curadoria compartilhada.

Não é mais apenas o algoritmo da livraria dizendo o que pode interessar porque você comprou três livros parecidos.

É uma pessoa dizendo:

“Leia este. Acho que você vai gostar.”

E, algumas vezes, o grupo inteiro dizendo:

“É esse aqui que vamos ler.”

Você não controla completamente o caminho.

E talvez seja justamente aí que esteja a graça.

Ler também pode ser sair do caminho

Nos últimos tempos, tenho me desafiado bastante nesse sentido.

Eu gosto demais de ler.

E justamente por gostar tanto, percebi que precisava tomar cuidado para não transformar meu gosto em uma espécie de mapa fechado.

Quero continuar encontrando livros que me surpreendam.

Quero conhecer mais ficção científica nacional.

Quero descobrir autores que ainda não chegaram ao meu radar.

Quero ler coisas que me façam pensar:

“Eu não teria escolhido esse livro sozinho.”

Porque essa frase, que poderia parecer uma crítica, muitas vezes é um elogio.

Se eu não teria escolhido sozinho e, mesmo assim, terminei a leitura feliz por ter conhecido aquela história, alguma coisa interessante aconteceu.

Eu saí da minha zona de conforto.

E alguém me ajudou a encontrar uma porta que eu nem sabia que existia.

Minha agenda literária anda movimentada

E talvez o melhor exemplo disso seja minha própria agenda recente.

No último sábado, teve debate da leitura coletiva de Tédio Terminal, de Izumi Suzuki.

Depois, veio o debate de Não é o que você está pensando, de Adriane Goldoni, na Leitura Coletiva Saifers.

E, logo depois, o debate de Kallocaína, de Karin Boye, na leitura coletiva do Ricardo e do Michael. Três livros. Três experiências. Três discussões.

E mais uma prova de que, quando você participa de diferentes grupos de leitura, acaba encontrando caminhos literários que dificilmente percorreria sozinho.

É quase como montar um mapa da ficção científica através das recomendações de outras pessoas.

E eu gosto muito desse mapa.

Talvez a próxima descoberta venha de você

Por isso, quero terminar este texto com uma pergunta.

Se você pudesse me indicar uma leitura coletiva para participar, qual seria?

Ou, melhor ainda:

você participa de alguma leitura coletiva atualmente?

Pode ser uma LC de ficção científica.

Pode ser de fantasia.

Terror.

Literatura brasileira.

Clássicos.

Qualquer coisa.

Quero conhecer.

Porque talvez a próxima leitura que vai me tirar da zona de conforto não esteja em uma livraria.

Talvez esteja na indicação de alguém que está lendo este texto.

E, pensando bem, talvez seja justamente essa a melhor parte.

A gente começa uma leitura coletiva achando que vai encontrar apenas um livro.

E pode acabar encontrando um autor.

Uma comunidade.

Uma nova perspectiva.

Ou até uma nova paixão literária.

No fim das contas, talvez ler em grupo seja também uma forma de lembrar que ninguém precisa escolher sozinho o caminho por onde vai viajar dentro da literatura.

E, para quem gosta de ficção científica, existem caminhos demais para serem percorridos.

Ainda bem.

Fim da transmissão.

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