Como a ficção científica consegue ensinar falando de guerras
A reflexão depois de ler um livro nacional, me levou a perceber que a ficção científica fala de guerra, contra alienígenas ou humanos em outros planetas distantes, para no fim das contas, falar de algo muito mais próximo: a nossa própria humanidade.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
6/11/20263 min read
Nenhum funeral para os mortos. Nenhum funeral para aqueles que não tiveram chance de lutar. Nenhum funeral para aqueles que não tiveram a opção de não lutar.
Na guerra, todos perdem. Mas infelizmente ela ainda existe, causando dor, sofrimento e transtornos de todas as maneiras possíveis.
O capitão X ordena um ataque ao exército do capitão Y. Mas quem são os soldados que dão a vida em prol dessa ordem, muitas vezes motivada por ego e pela vontade de usurpar a terra alheia? O sangue que mancha os campos de batalhas não são iguais aos que continuam circulando? E o que fica, depois que os tiros cessam?
É nessa linha de raciocínio que a ficção científica entra.
Por décadas, diversas obras futuristas tratam desse tema militar com uma profundidade que o noticiário raramente alcança. A ficção científica tem a capacidade única de deslocar o conflito no tempo e no espaço, para outros planetas e outros séculos distante, e mesmo assim nos forçar a enxergar o que há de essencial e permanente na violência humana: o poder, a obediência, o luto e a desumanização do inimigo. Aqui, bem debaixo dos nossos narizes.
Em 1959, Robert A. Heinlein publicou Tropas Estelares, romance que imagina um futuro onde apenas veteranos militares conquistam cidadania plena. Johnny Rico se alista na Infantaria Móvel e enfrenta um treinamento brutal antes de entrar em uma guerra interestelar contra os aracnídeos alienígenas. Mais do que uma história de combate espacial, o livro discute disciplina, dever, patriotismo e o papel da violência na manutenção da sociedade, tornando-se uma das obras mais influentes, e também mais debatidas, da ficção científica militar.
Ursula K. Le Guin, em Os Despossuídos, trilha um caminho diferente. Em vez de retratar heróis e vilões nítidos, ela apresenta sistemas políticos distintos tentando sobreviver, cada um cheio de falhas e contradições. A ideia de que o "outro lado" também é composto por pessoas comuns atravessa o romance inteiro, corroendo qualquer certeza confortável sobre quem merece vencer, e quem merece chorar seus mortos.
Mas não é preciso ir muito mais longe para encontrar obras que trabalham esse tema tão sensível de forma ao mesmo tempo aterradora e necessária.
Roberto Fideli, escritor nascido em São Paulo em 1992, aborda em seu romance Nenhum Funeral para os Mortos essa temática de maneira sublime. Na obra, a guerra e o terrorismo não aparecem apenas como conflitos entre lados opostos, mas como tragédias humanas marcadas por trauma, memória e desumanização. Ao acompanhar Carol descobrindo o envolvimento de sua mãe em um atentado nas colônias marcianas décadas antes, a narrativa recusa transformar seus personagens em simples heróis ou vilões. O livro explora justamente a ideia de que, por trás de cada inimigo, também existem pessoas moldadas pela dor, pela política e pelas consequências da violência.
A ficção científica, em seu melhor momento, não glorifica a guerra: ela a autopsia. Heinlein questiona quem tem o direito de decidir pelo conflito. Le Guin questiona se o inimigo é realmente o outro. Fideli questiona o que fazemos com a culpa herdada, com as verdades que preferimos enterrar junto com os mortos.
E talvez seja essa a função mais honesta que a literatura pode cumprir: dar um funeral, em palavras, para aqueles que o mundo insiste em ignorar.








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