Cidade de Sangue e Aço mistura space opera, representatividade LGBTQIA+ e cyberpunk em uma aventura espacial brutalmente humana

Com gangues espaciais, implantes biomecânicos e planetas dominados por corporações, Milena Costa cria uma space opera brasileira que mistura ação, representatividade e crítica social sem perder o ritmo de aventura.

RESENHAS

Michael Douglas

5/26/20263 min read

As maiores obras da ficção científica costumam nascer dentro da space opera.
Não apenas pelas batalhas espaciais ou pelas naves gigantescas, mas porque esse subgênero permite falar sobre humanidade em escalas absurdas.

Encontro com Rama, de Arthur C. Clarke, fez isso olhando para o desconhecido cósmico.
Nova, de Samuel Delany, transformou corridas espaciais em discussões emocionais e sociais.

E pensando por esse aspecto, percebemos que Cidade de Sangue e Aço, de Milena Costa, funciona muito bem.

Porque por trás das viagens interestelares, dos implantes biomecânicos e das gangues espaciais, existe uma história profundamente interessada nas pessoas esmagadas por sistemas injustos.

A Terra já foi destruída há muito tempo. O ser humano agora vive espalhado por planetas colonizados, tentando sobreviver em sociedades que carregaram para o espaço exatamente os mesmos problemas que existiam antes: desigualdade, fome, corrupção e concentração de poder.

Nesse cenário conhecemos Isabel.

Bel é uma mercenária espacial. Uma sobrevivente. Daquelas personagens que parecem duras o tempo inteiro porque o universo ao redor não permitiu outra alternativa. Ela aceita trabalhos moralmente questionáveis porque precisa continuar existindo — e porque parte desse dinheiro ainda ajuda pessoas esquecidas da cidade de Cyfar.

E então surge Aidan.

Ou melhor, ressurge.

O passado traumático dos dois volta justamente quando Bel aceita um trabalho ligado a Zoti, talvez o homem mais poderoso e desprezível daquele sistema inteiro. Um magnata que controla vidas, manipula cidades inteiras e alimenta sua própria grandeza enquanto crianças passam fome nos níveis inferiores da sociedade.

Milena Costa constrói Zoti daquela maneira clássica que o cyberpunk faz tão bem: o vilão não parece distante da realidade. Ele só é uma versão maximizada de estruturas que já existem.

Para cumprir a missão, Bel e Aidan recebem a companhia de Arya, protegida pessoal de Zoti. E aqui o livro encontra uma das suas dinâmicas mais interessantes.

Arya cresceu isolada na torre do magnata. Viveu cercada de luxo, mas também aprisionada. Enquanto Bel e Aidan já conhecem perfeitamente a violência daquele universo, Arya começa a descobrir aos poucos como o sistema realmente funciona.

E funciona muito.

Porque os três personagens possuem perspectivas completamente diferentes daquele mundo, o que impede a narrativa de cair numa visão simplista de opressor e oprimido. Todo mundo ali carrega cicatrizes próprias.

Além disso, o trisal formado entre Arya, Bel e Aidan é tratado com uma naturalidade raríssima dentro da ficção científica nacional. Não vira fetiche narrativo nem mero detalhe decorativo. Faz parte da construção emocional dos personagens.

E isso dá muita força para a história.

Quando o trabalho inevitavelmente dá errado, Cidade de Sangue e Aço entra numa escalada constante de tensão, perseguições e sobrevivência. Mas o mais interessante é que, mesmo acelerando bastante em alguns momentos, o livro nunca abandona o desenvolvimento emocional da própria tripulação.

O cyberpunk da obra também merece destaque justamente porque não depende apenas de estética neon ou chuva em cidades futuristas. Ele aparece nos pilares sociais da narrativa: grandes corporações controlando vidas, criminalidade institucionalizada, pobreza extrema convivendo lado a lado com luxo absurdo e corpos modificados por implantes biomecânicos.

Existe muito mais preocupação social aqui do que visual.

Outro ponto que deixa a leitura extremamente fluida é a alternância de pontos de vista. Os capítulos em primeira pessoa criam aquela sensação constante de urgência. Você termina um capítulo preocupado com um personagem enquanto imediatamente é jogado na perspectiva de outro vivendo um caos completamente diferente.

Cidade de Sangue e Aço consegue algo muito difícil dentro da ficção científica nacional contemporânea: ser uma ótima porta de entrada para novos leitores sem deixar de entregar profundidade para quem já ama o gênero.

É um livro sobre exploração espacial, implantes biomecânicos e colônias distantes, mas principalmente sobre pessoas tentando continuar humanas dentro de sistemas construídos para esmagá-las.

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