CEMIX: E se o alienígena, na verdade, fôssemos nós?

Em "Cemix", Nih Ramos inverte a equação clássica da ficção científica: a Terra não é o centro da história, é a colônia esquecida de um experimento que deu errado.

RESENHAS

Michael Douglas

6/30/20263 min read

Cemix começa desmontando a imagem que todo mundo carrega na cabeça quando o assunto é vida extraterrestre. Esquece o verdinho cabeçudo dos filmes. O que Nih Ramos propõe é mais inquietante do que isso: e se o alienígena de verdade não for quem chega de fora, mas nós mesmos, sem saber?

A virada central do livro é simples de descrever e enorme em consequência: a humanidade não começou na Terra. Começou em Marte. Quando o planeta vermelho entrou em colapso, o conselho marciano despachou cápsulas exploratórias para dois destinos — a Terra e Cemix. Em algum momento, o contato com o grupo que veio para a Terra se perdeu, e a sociedade marciana simplesmente seguiu adiante, sem nós.

Isso significa que, dentro da lógica do livro, nós somos a colônia abandonada. O experimento que ninguém mais acompanha. O ramo da árvore genealógica que os parentes em Cemix aprendem na escola, como quem estuda um capítulo de história antiga, enquanto a gente, do nosso lado, nem sabe que existe uma árvore.

Esse é, para mim, o detalhe mais inteligente da construção de Nih Ramos: os cemixilianos crescem sabendo da existência da Terra. Nós, terráqueos, não temos a menor ideia de que Cemix existe. Essa assimetria de informação — um lado observando, estudando, conhecendo o outro por gerações, enquanto o outro lado vive completamente alheio — é o tipo de desequilíbrio de poder que costuma aparecer em histórias sobre colonialismo, vigilância e relações de dominação, só que aqui transposto para uma escala planetária e envolto em magts (os super-poderes desenvolvidos pelas condições especiais de Cemix).

Não é à toa que a trama só começa a girar quando alguém de dentro desse sistema desigual decide romper a lógica. Adhara, cemixiliana, descobre um plano de destruição contra a Terra e faz a escolha que sustenta o livro inteiro: atravessa a fronteira entre os dois mundos para avisar quem nem sabia que precisava ser avisado.

Quando Adhara e seu grupo chegam à Terra e se encontram com Maxi e outros terráqueos, o livro faz algo sutil e eficaz: distribui os magts também para os humanos. A linha que separava "os de Cemix, com poderes" dos "terráqueos, comuns" desaparece rápido. E com ela, desaparece também a ideia de que existe um lado "normal" e um lado "alienígena" na história. Todo mundo, em algum momento, é o estranho no ninho de alguém.

É esse embaralhamento de identidades que torna Cemix mais interessante do que um simples confronto entre terráqueos e invasores. Aqui, ninguém é completamente de um lugar só. Os terráqueos descobrem que talvez nem sejam originalmente da Terra. Os cemixilianos descobrem que talvez tenham mais em comum com os humanos do que imaginavam. E o leitor, no meio disso tudo, é convidado a abandonar a pergunta "quem são os alienígenas?" pela pergunta mais incômoda: "quem decide quem é o alienígena?"

Um mérito que vale destacar: mesmo em uma história cheia de revelações cósmicas e poderes especiais, são os personagens secundários — não necessariamente os protagonistas centrais — que acabam segurando boa parte do peso emocional do livro. A escrita ágil de Nih Ramos não dá tempo para o leitor se acomodar; a cada página alguma reviravolta pessoal ou emocional empurra a história para frente, sem deixar espaço para tédio.

A ficção científica adora histórias de invasão alienígena porque elas funcionam como espelho: o "outro" que chega de fora normalmente representa nossos próprios medos sobre diferença, sobre o desconhecido, sobre perder o controle do nosso próprio planeta. Cemix faz algo mais ousado — coloca a humanidade no papel do "outro" dentro da própria história, e isso muda completamente o ângulo da reflexão.

Porque se a gente é, na verdade, a colônia esquecida, a pergunta que sobra não é mais "o que faríamos se um alienígena chegasse à Terra". É: o que fazemos quando descobrimos que talvez sempre tenhamos sido o alienígena de alguém? (E você pode interpretar essa pergunta no sentido literal - sermos um povo alienígena no espaço - ou no sentido metafórico, da nossa sociedade.)

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