Autores, escrevam mais ficção científica com realidade aumentada — e menos com IA
Enquanto a inteligência artificial e a realidade virtual dominam o imaginário tecnológico, a realidade aumentada pode ser a tecnologia que mais profundamente transformará nossa relação com o mundo que já habitamos.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
9/29/20268 min read
Existe uma espécie de repetição no imaginário da ficção científica contemporânea. Basta abrir alguns lançamentos recentes, assistir a uma série ou acompanhar as discussões sobre o futuro da tecnologia para encontrar novamente os mesmos elementos: inteligências artificiais cada vez mais sofisticadas, máquinas que desenvolvem consciência, algoritmos que passam a controlar sociedades inteiras e mundos virtuais nos quais os personagens podem abandonar completamente a realidade. São temas importantes, evidentemente, e a ficção científica ainda tem muito a dizer sobre eles. O problema é que, depois de tantas décadas explorando essas possibilidades, comecei a sentir falta de outra tecnologia que me parece ainda mais interessante para imaginar o futuro cotidiano: a realidade aumentada.
A Apple deu uma demonstração bastante concreta dessa direção com o Vision Pro. Apresentado como um computador espacial, o dispositivo não precisa simplesmente substituir o mundo físico por um ambiente virtual. Ele permite que aplicações, janelas, imagens e objetos digitais sejam posicionados no espaço ao redor do usuário, misturando informação digital e ambiente físico. A tecnologia ainda está longe de parecer com os discretos óculos futuristas que a ficção científica costuma imaginar, mas a ideia fundamental já está ali. O computador começa a deixar de ser apenas uma tela que carregamos conosco e passa a ocupar o próprio espaço em que vivemos.
É justamente essa mudança que me interessa. A realidade virtual sempre teve uma relação muito clara com a ideia de escapar do mundo. Colocamos um dispositivo no rosto e entramos em outro ambiente. A tela desaparece, a sala desaparece, a cidade desaparece e, durante algum tempo, aceitamos outra realidade como verdadeira. É uma ideia excelente para a ficção científica, e obras como Neuromancer, de William Gibson, Snow Crash, de Neal Stephenson, e posteriormente Ready Player One exploraram diferentes versões desse desejo de construir mundos digitais nos quais podemos entrar.
A realidade aumentada segue por uma direção muito mais discreta e, justamente por isso, muito mais perturbadora. Ela não exige que abandonemos a realidade. Continuamos caminhando pela mesma rua, entrando no mesmo restaurante, trabalhando no mesmo escritório e conversando com a mesma pessoa. A diferença está na camada de informação que passa a existir diante dos nossos olhos. O prédio continua sendo um prédio, mas pode carregar sua história, sua avaliação, seu preço, sua utilização original ou qualquer outra informação escolhida pelo sistema. Uma placa pode ser traduzida instantaneamente. Uma máquina pode apresentar instruções diretamente sobre suas peças. Um caminho pode ser indicado no próprio ambiente. Uma obra de arte pode ganhar uma camada de informações que só o visitante equipado com a tecnologia consegue enxergar.
Isso muda completamente a relação entre tecnologia e realidade. Durante décadas, imaginamos computadores como objetos que nos permitiriam acessar informações. Depois passamos a carregá-los no bolso. Com a realidade aumentada, o próximo passo é fazer com que a informação esteja permanentemente associada ao lugar, às pessoas e aos objetos que encontramos. O computador deixa de ser uma coisa para a qual olhamos e começa a se tornar uma coisa através da qual olhamos.
É aqui que a ficção científica encontra um território extraordinário.
Imagine uma pessoa caminhando por uma cidade equipada com lentes de realidade aumentada. Ela olha para um restaurante e recebe uma avaliação antes mesmo de entrar. Olha para um desconhecido e vê seu nome, profissão e informações disponíveis publicamente. Observa um edifício e recebe uma descrição histórica. Viaja para outro país e passa a enxergar todas as placas traduzidas. Em um museu, as obras ganham informações adicionais. No trabalho, equipamentos e documentos passam a ser identificados automaticamente. Durante uma consulta médica, dados e imagens podem ser posicionados sobre o corpo do paciente. Em uma viagem, a própria paisagem passa a ser acompanhada por uma camada de informações.
A princípio, tudo isso parece extremamente conveniente. E provavelmente seria. O problema começa quando perguntamos quem controla essa camada.
Se uma empresa decide quais informações aparecem diante dos nossos olhos, ela passa a ter uma influência muito maior do que uma empresa que simplesmente controla uma rede social ou um mecanismo de busca. Ela não está mais disputando nossa atenção em uma tela. Está interferindo diretamente na maneira como percebemos o ambiente. Um estabelecimento pode aparecer com cinco estrelas para uma pessoa e desaparecer completamente para outra. Uma determinada notícia pode surgir quando alguém olha para uma praça. Uma manifestação pode ser identificada de uma maneira para um grupo e de outra maneira para outro. Um produto pode ser colocado virtualmente sobre uma prateleira. Uma pessoa pode ser identificada por um sistema antes mesmo de dizer seu nome.
E existe uma consequência ainda mais interessante: duas pessoas poderiam estar fisicamente no mesmo lugar e, ainda assim, experimentar realidades diferentes.
Essa é uma situação que a realidade aumentada oferece à ficção científica e que considero muito mais rica do que simplesmente imaginar uma inteligência artificial cada vez mais inteligente. Se duas pessoas olham para a mesma rua, mas recebem informações completamente diferentes sobre aquilo que estão vendo, onde termina a realidade e começa a interpretação? A cidade permanece a mesma, mas a experiência da cidade passa a depender do sistema que cada indivíduo utiliza. Uma pessoa pode enxergar anúncios, outra pode receber alertas de segurança, outra pode receber informações políticas e uma quarta pode não enxergar nenhuma dessas coisas. A arquitetura permanece intacta. O que muda é a camada informacional que determina como aquela arquitetura será percebida.
Vernor Vinge explorou algo próximo disso em Rainbows End, publicado em 2006. O romance apresenta um futuro no qual interfaces digitais, dispositivos vestíveis e realidade aumentada estão profundamente incorporados ao cotidiano. A tecnologia não aparece apenas como uma ferramenta extraordinária utilizada ocasionalmente; ela passa a fazer parte da maneira como as pessoas percebem, trabalham e interagem com o mundo. É uma das obras que melhor demonstram como a realidade aumentada pode funcionar como elemento estrutural de uma sociedade, e não apenas como um recurso visual futurista.
Ou, como não lembrar do filme Eles Vivem lançado em 1989, onde o personagem coloca um óculos e começa a enxergar a face verdadeira das pessoas e anúncios reais nos outdoores.
O que me interessa é pensar no que acontece quando essa tecnologia deixa de depender de um dispositivo grande e passa a caber em um par de óculos que podemos usar durante todo o dia. Esse é o ponto em que a realidade aumentada pode se tornar muito mais presente do que a realidade virtual. Um headset de realidade virtual pede uma decisão: vou entrar em uma experiência virtual agora. Um óculos de realidade aumentada pode acompanhar o usuário enquanto ele toma café, dirige, trabalha, viaja, faz compras, caminha e conversa. A tecnologia não precisa interromper a vida cotidiana para funcionar. Ela pode simplesmente permanecer sobre ela.
Essa diferença tem consequências enormes para a maneira como imaginamos o futuro. Um dispositivo que usamos durante uma hora para jogar é uma coisa. Um dispositivo que usamos durante quatorze horas para enxergar o mundo é outra completamente diferente. No segundo caso, a tecnologia começa a participar da percepção, da memória e das relações sociais. Ela pode se tornar tão natural quanto o smartphone se tornou para nossa geração.
E existe uma questão ainda mais interessante: o que acontece quando as pessoas passam a confiar mais na camada digital do que naquilo que seus próprios olhos estão vendo?
A ficção científica pode explorar um personagem que olha para uma rua e recebe uma indicação de perigo, sem saber exatamente por que o sistema classificou aquele lugar daquela maneira. Pode mostrar uma cidade em que determinadas pessoas são automaticamente identificadas, enquanto outras pagam para permanecer invisíveis. Pode imaginar empresas que oferecem versões diferentes da realidade dependendo do plano contratado. Pode criar uma sociedade em que os ricos enxergam informações que os pobres não conseguem acessar. Pode mostrar crianças crescendo sem nunca experimentar uma cidade sem filtros digitais. Pode acompanhar alguém que, depois de décadas usando realidade aumentada, decide desligar o sistema e descobre que o mundo físico é muito menos familiar do que imaginava.
Existe material narrativo de sobra.
A realidade aumentada também oferece uma maneira particularmente interessante de discutir desigualdade. Durante muito tempo, a ficção científica imaginou desigualdade em termos de acesso a recursos físicos: quem tem uma nave, quem possui uma casa melhor, quem vive em determinada cidade, quem consegue viajar para outro planeta. No futuro, uma diferença igualmente importante pode estar na quantidade de informação que cada pessoa consegue enxergar. Uma criança pode caminhar pela mesma escola que outra e ter acesso, através de suas lentes, a tutores virtuais, traduções, bancos de dados e ferramentas de aprendizado que a outra não possui. Dois trabalhadores podem ocupar o mesmo escritório, mas um deles pode receber instruções em tempo real, assistência profissional e informações sobre cada pessoa com quem interage.
A desigualdade deixaria de estar apenas naquilo que alguém possui. Estaria também naquilo que alguém consegue ver.
Esse cenário é especialmente fértil porque não precisa de uma tecnologia impossível. Ele nasce de uma evolução bastante plausível de ferramentas que já existem. A Apple não inventou a realidade aumentada, assim como o smartphone não inventou a computação móvel. O que grandes empresas fazem é transformar conceitos tecnológicos em produtos que podem alcançar um público muito maior. O Vision Pro representa uma etapa dessa trajetória, e as futuras gerações de dispositivos podem tornar a experiência mais leve, barata e natural. A própria Apple já vem ampliando as possibilidades espaciais do visionOS, incluindo widgets posicionados no ambiente físico e novas experiências tridimensionais.
Por isso, quando vejo a quantidade de histórias de ficção científica atualmente dedicadas a inteligências artificiais, sinto falta de uma exploração equivalente da realidade aumentada. A IA é um tema extraordinário, mas já estamos cercados por histórias sobre máquinas que pensam. A realidade aumentada permite contar histórias sobre pessoas que enxergam. E existe uma diferença enorme entre as duas coisas.
Uma inteligência artificial pode conversar com um personagem, manipulá-lo, ajudá-lo ou tentar substituí-lo. Uma realidade aumentada pode alterar aquilo que o personagem acredita estar vendo. Uma tecnologia interfere na decisão; a outra pode interferir na própria percepção que antecede a decisão.
Para um leitor de ficção científica, isso abre uma quantidade enorme de possibilidades.
Quero ver mais romances sobre cidades que possuem diferentes camadas de realidade. Quero personagens que descubram que suas lentes estavam ocultando determinadas informações. Quero sociedades nas quais o espaço público tenha uma aparência diferente para cada grupo social. Quero histórias sobre propaganda que não pode ser desligada porque está literalmente sobreposta ao mundo. Quero investigações em que a principal evidência esteja escondida em uma camada digital que o protagonista inicialmente não consegue acessar. Quero personagens que descubram que duas pessoas podem ter vivido a mesma situação e, ainda assim, possuírem registros visuais completamente diferentes dela.
A ficção científica sempre foi muito boa em perguntar como uma nova tecnologia poderia mudar a humanidade. A realidade aumentada oferece uma pergunta particularmente desconfortável: o que acontece quando a tecnologia passa a participar daquilo que chamamos de realidade?
É uma pergunta que merece mais livros.
Depois de décadas imaginando máquinas que pensam e mundos para os quais podemos escapar, eu gostaria de ver mais escritores olhando para uma possibilidade muito mais próxima: um futuro em que continuaremos vivendo nas mesmas cidades, trabalhando nos mesmos lugares e caminhando pelas mesmas ruas, mas veremos tudo através de uma camada digital permanente.
A ficção científica já imaginou máquinas inteligentes o suficiente para conversar conosco. Já imaginou mundos virtuais capazes de nos fazer esquecer o mundo real. Agora ela pode explorar algo diferente: um mundo real que nunca mais será visto sozinho.
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