Autópsia Carioca: uma das distopias nacionais mais desconfortáveis que já li

Uma distopia nacional que troca o autoritarismo tradicional por uma pergunta muito mais incômoda: até onde uma sociedade pode ser responsável pela própria ruína?

RESENHAS

Michael Douglas

8/11/20264 min read

Existe quase uma fórmula quando pensamos em distopias. É comum imaginarmos governos autoritários, vigilância constante, censura, pobreza extrema e uma população vivendo sob medo permanente. São histórias em que o poder costuma ser o grande responsável pelo colapso da sociedade e onde o conflito principal nasce da luta contra um sistema opressor. Talvez por isso Autópsia Carioca, de Vinícius Canabarro, tenha me surpreendido tanto. O governo está presente, é claro, mas ele não ocupa sozinho o papel de antagonista. A sensação que tive durante toda a leitura é que a história está muito mais interessada em mostrar como uma sociedade pode colaborar com a própria destruição do que apenas denunciar um regime autoritário.

A premissa já chama atenção. Uma névoa arroxeada começa a surgir nas praias do Rio de Janeiro. Ela vem do mar, se espalha lentamente pela areia e, conforme os dias passam, fica mais densa. Quando as primeiras mortes acontecem, cientistas descobrem que aquela névoa é tóxica. O governo decide interditar as praias, uma medida que parece lógica diante do risco, mas que desencadeia consequências enormes para a cidade. Ambulantes perdem sua fonte de renda, hotéis e comércios entram em crise, trabalhadores ficam sem emprego e rapidamente o debate deixa de ser sobre saúde pública para se tornar uma disputa política.

É nesse ponto que o romance encontra sua maior força. Em vez de construir uma narrativa centrada apenas nas decisões do governo, Vinícius Canabarro direciona o olhar para a reação das pessoas. Aos poucos surgem movimentos que rejeitam as evidências científicas, tratam as restrições como uma afronta à liberdade e passam a enxergar qualquer tentativa de contenção como uma forma de opressão. O problema deixa de ser apenas a névoa e passa a ser a incapacidade coletiva de lidar com uma crise quando ela exige responsabilidade e renúncia.

É impossível ignorar que o livro foi escrito no início da pandemia. Boa parte da atmosfera que atravessa a narrativa nasce daquela sensação de incerteza que todos experimentamos naquele período, mas o mais curioso é perceber como diversas situações descritas pelo autor ganharam ainda mais força nos anos seguintes. A leitura transmite uma impressão estranha de familiaridade, como se estivéssemos revisitando acontecimentos que ainda estão muito próximos da nossa memória.

A história é narrada por um garoto que presencia toda essa transformação desde o começo. O detalhe que mais me chamou atenção é que ele nunca recebe um nome. Em outros livros isso poderia parecer apenas uma escolha estética, mas aqui funciona muito bem porque desloca o foco da identidade individual para a experiência humana. O narrador poderia ser qualquer pessoa tentando sobreviver em uma realidade que muda rápido demais, onde o medo se torna parte da rotina e cada decisão parece carregar consequências imprevisíveis.

Enquanto a situação da cidade piora, acompanhamos também a deterioração das condições de vida. O isolamento do Rio de Janeiro em relação ao restante do país modifica completamente a dinâmica da sociedade. Direitos deixam de existir, o trabalho passa a acontecer em condições degradantes e a violência se torna uma presença constante. Questionar as decisões das autoridades ou simplesmente demonstrar insatisfação passa a representar um risco real, não apenas por causa do governo, mas também pela reação das próprias pessoas, que começam a enxergar qualquer pensamento diferente como uma ameaça.

Foi justamente aí que o livro mais me atingiu. O protagonista não reage da maneira como estamos acostumados a ver em tantas distopias. Ele não organiza uma revolução, não enfrenta diretamente o sistema e nem se transforma em um símbolo de resistência. Na maior parte do tempo ele apenas tenta continuar vivendo, suportando uma realidade que parece grande demais para ser enfrentada sozinho. É fácil ler esses momentos e sentir vontade de que ele faça alguma coisa, mas logo vem uma pergunta desconfortável: quantas vezes nós mesmos fazemos exatamente a mesma escolha?

Essa foi, para mim, a reflexão mais interessante do romance. O personagem vive cercado por situações muito mais extremas do que aquelas que enfrentamos diariamente, mas o sentimento que o impede de agir não é estranho para nenhum de nós. Quantas injustiças testemunhamos sem fazer nada? Quantas vezes preferimos acreditar que alguém resolverá determinado problema enquanto seguimos nossa rotina? O livro não faz esse questionamento de forma moralista, mas consegue provocar esse incômodo sem precisar apontar o dedo para o leitor.

A escrita de Vinícius Canabarro contribui muito para isso. Ela não tenta impressionar pelo excesso de descrições nem pela complexidade da linguagem. É uma escrita direta, íntima e bastante sensível aos personagens, permitindo que a narrativa avance naturalmente enquanto o peso emocional cresce capítulo após capítulo. Quando a história termina, a sensação que permanece não é a de ter acompanhado apenas uma boa distopia, mas de ter lido um romance que usa a ficção científica para discutir comportamentos profundamente humanos.

Autópsia Carioca é um daqueles livros que permanecem na cabeça muito tempo depois da última página. A névoa que inicia toda a história acaba se tornando apenas uma parte de um problema muito maior. O que realmente conduz a narrativa são as escolhas das pessoas, a facilidade com que abrimos mão da razão quando ela entra em conflito com nossos interesses e a maneira como o medo pode transformar uma sociedade inteira. É uma obra que incomoda porque reconhecemos nela situações que gostaríamos de acreditar que pertencem apenas à ficção, mas que, infelizmente, continuam fazendo parte da realidade.

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