ASIMOV, OS PRÓPRIOS DEUSES: Contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão?
Em "Os Próprios Deuses", Asimov mostra que o maior perigo nunca foi a ciência — foi a nossa recusa em abrir mão do conforto.
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
6/28/20263 min read
Há um certo tipo de desconforto que só a boa ficção científica sabe provocar: aquele em que o livro não está falando sobre o futuro, está falando sobre nós, agora, só que disfarçado de futuro. Os Próprios Deuses, de Isaac Asimov, é exatamente esse tipo de livro.
Essa é uma obra que exige paciência. O começo é denso, quase hostil: física especulativa, conceitos que parecem só fazer sentido nas últimas páginas, um universo paralelo com regras próprias. Mas Asimov não está sendo confuso por acaso. Ele está construindo o terreno para um dos socos mais certeiros que a ficção científica já deu na nossa cara coletiva.
Tem um trecho do livro que, para mim, resume tudo o que Asimov queria dizer — e que ele decide não sussurrar, mas escrever em letras de forma, com paciência de professor que sabe que o aluno vai fingir que não entendeu:
"É um erro supor que as pessoas querem o meio ambiente protegido ou suas vidas salvas, e que se sentirão gratas com qualquer idealista que se disponha a lutar por essas causas. O que o povo deseja é seu próprio conforto. [...] Assim que ficou estabelecido que o tabagismo aumentava a incidência de câncer de pulmão, a solução óbvia era parar de fumar, mas o remédio desejado era um cigarro que não estimulasse o câncer. Quando ficou claro que o motor de combustão interna estava poluindo perigosamente a atmosfera, a solução óbvia era abandonar esses motores, e o remédio foi desenvolver motores não poluentes."
Para um bom entendedor, meia palavra bastaria. Asimov, generoso (ou desconfiado da nossa capacidade de entender de primeira), nos dá o parágrafo inteiro. E faz bem, porque é fácil ler essa passagem rápido demais e perder o tamanho do que ela está dizendo.
No enredo, a humanidade descobre uma fonte de energia praticamente infinita: a Bomba de Elétrons, que funciona trocando matéria com um universo paralelo. O problema é que essa troca, com o tempo, ameaça desestabilizar o próprio Sol — um risco existencial, cósmico, definitivo. E ainda assim, quase ninguém quer abandonar a tecnologia. Por quê? Porque ela resolveu a crise energética. Porque trouxe conforto, abundância, progresso visível e palpável agora. O perigo é abstrato, futuro, parece distante demais para competir com a conta de luz baixa e as luzes que não apagam.
É a mesma lógica do cigarro "menos cancerígeno" e do motor "menos poluente". Não queremos o sacrifício — queremos a solução que não exija sacrifício nenhum. Queremos continuar exatamente como estamos, só que sem as consequências. E quando alguém aparece dizendo que talvez seja necessário abrir mão de algo, esse alguém rapidamente se torna o vilão da história, não o problema que ele está tentando resolver.
Asimov escreveu isso em 1972. Mais de cinquenta anos depois, troque "motor de combustão interna" por qualquer tecnologia atual que você quiser — energia, inteligência artificial, agricultura, o que for — e o parágrafo continua funcionando palavra por palavra. Isso não é coincidência nem sorte de profeta. É porque Asimov não estava escrevendo sobre tecnologia específica. Estava escrevendo sobre gente. E gente, infelizmente, muda muito menos rápido do que a tecnologia que ela mesma cria.
O título do livro vem de uma citação de Friedrich Schiller: "contra a estupidez, os próprios deuses lutam em vão." E é difícil não ler isso como o verdadeiro tema central da obra — mais até do que a física de universos paralelos ou a energia infinita. A verdadeira ameaça em Os Próprios Deuses nunca é a ciência. É a nossa recusa coletiva em encarar verdades desconfortáveis quando elas exigem que mudemos de comportamento.
A genialidade de Asimov aqui não está em prever o futuro — está em descrever, com precisão cirúrgica, um padrão humano que se repete sempre que conforto e responsabilidade entram em conflito. Não é que sejamos maus ou egoístas por natureza. É que somos, em geral, incapazes de escolher o desconforto presente em troca de um risco futuro, mesmo quando esse risco é catastrófico.
E talvez seja esse o verdadeiro horror cósmico do livro: não o universo paralelo, não a física impossível, não os seres alienígenas com sua lógica estranha de existência tripla. O horror real é olhar para essa passagem e reconhecer, sem dificuldade nenhuma, o nosso próprio mundo.
Se os deuses lutam em vão contra a estupidez, talvez a pergunta que Os Próprios Deuses deixa não seja sobre eles. Seja sobre nós. E que a esperança seja a humanidade perceber que ela é o próprio deus [sem viés religioso], o responsável pelo seu próprio destino.


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