Alexey Dodsworth apresenta Repetição, novo romance da Aleph que transforma tecnologia e luto em ficção científica

Em Repetição, o escritor Alexey Dodsworth imagina uma sociedade onde a tecnologia promete preservar quem morreu — e questiona o preço de não aceitar a perda.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

8/12/20266 min read

Existe uma ideia recorrente quando pensamos no futuro da tecnologia. Imaginamos máquinas cada vez mais inteligentes, avanços na engenharia genética, corpos modificados e formas de existência que hoje parecem pertencer apenas à ficção científica. Quase sempre, porém, a discussão termina naquilo que essas tecnologias serão capazes de fazer. Talvez a pergunta mais interessante seja outra: o que nós faremos quando elas realmente puderem fazer essas coisas?

É nesse espaço que Alexey Dodsworth constrói Repetição, seu novo romance publicado pela Aleph. A obra parte de uma possibilidade que parece cada vez menos distante: a utilização da tecnologia para reproduzir, de alguma maneira, pessoas que já morreram. O que começa como uma discussão sobre inteligência artificial, clonagem e os limites da ciência rapidamente se transforma em algo muito mais humano. Afinal, se fosse possível conversar novamente com alguém que perdemos, até que ponto estaríamos dispostos a acreditar que aquela pessoa realmente voltou?

Foi justamente sobre essas questões que Dodsworth falou em uma entrevista ao canal Papo Mutante, apresentado por Chico do perfil @mutanteliterario. A conversa ajuda a entender não apenas a origem de Repetição, mas também o tipo de ficção científica que o autor vem construindo ao longo de sua trajetória.

Alexey não chega à literatura vindo de um único lugar. Sua formação passa pela filosofia, pela astronomia e pela pesquisa em temas relacionados à ética e à tecnologia. Também possui uma trajetória anterior na ficção científica brasileira, com romances como Dezoito de Escorpião, O Esplendor e Paradoxo de Theséus. A própria Aleph vem ampliando seu espaço para autores brasileiros de ficção científica e colocou Repetição entre seus lançamentos de 2026.

Essa mistura de áreas ajuda a explicar uma característica bastante presente em sua obra. Dodsworth parece interessado em imaginar o futuro não apenas como um cenário cheio de tecnologias novas, mas como consequência das escolhas que estamos fazendo agora.

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Em Repetição, essa preocupação aparece de maneira bastante clara.

A história acompanha Gael, um dos poucos humanos que ainda escolhem envelhecer naturalmente em uma sociedade na qual a morte já não ocupa o mesmo lugar que conhecemos. Em um mundo onde a tecnologia conseguiu interferir profundamente na maneira como as pessoas vivem e morrem, envelhecer passa a ser quase uma escolha contra a corrente.

Mas o elemento mais interessante da história está na maneira como o romance transforma o luto em produto.

Empresas passam a oferecer formas de reproduzir digitalmente pessoas que morreram. Algoritmos podem reunir informações, comportamentos, memórias e características de alguém para criar uma espécie de presença virtual. Não se trata apenas de guardar fotografias ou mensagens. A tecnologia passa a oferecer algo muito mais perigoso para quem está sofrendo: a possibilidade de continuar conversando com quem já não está ali.

E é difícil não pensar em como reagiríamos diante disso.

Porque preservar a memória de alguém é uma coisa. Criar uma presença capaz de responder quando sentimos falta dessa pessoa é outra completamente diferente.

Durante a entrevista, Dodsworth conta que algumas das ideias de Repetição surgiram justamente da observação de coisas que já começam a acontecer. A inteligência artificial já consegue reproduzir vozes e imitar estilos de comunicação. Existem empresas interessadas em criar sistemas capazes de reproduzir características de pessoas que morreram. A engenharia genética também se tornou mais acessível em comparação com o que era possível algumas décadas atrás.

O livro não precisa inventar completamente esse futuro.

Ele apenas precisa levar algumas tendências atuais um pouco mais adiante.

Talvez seja por isso que a premissa de Repetição cause uma sensação diferente daquela que costumamos ter diante de determinadas distopias. Não existe uma tecnologia completamente impossível no centro da história. Existe algo que conseguimos reconhecer, mas que foi levado até uma consequência que ainda não sabemos se estamos preparados para enfrentar.

E o luto é provavelmente um dos melhores lugares para fazer essa pergunta.

Quando alguém morre, não perdemos apenas uma pessoa. Perdemos também a possibilidade de novas conversas, novas experiências e novas respostas. Existe uma ausência que não pode ser preenchida. A tecnologia imaginada por Dodsworth interfere justamente nesse ponto, oferecendo ao ser humano aquilo que talvez ele mais queira quando perde alguém: a sensação de que a ausência não é definitiva.

Só que existe uma diferença enorme entre diminuir a dor e impedir que ela exista.

É nesse momento que a discussão tecnológica se transforma em uma discussão ética.

Dodsworth demonstra preocupação com a maneira como algumas empresas utilizam o medo e a vulnerabilidade das pessoas para transformar novas tecnologias em produtos. Durante a conversa, ele também critica a velocidade com que determinadas ferramentas são desenvolvidas enquanto as discussões sobre suas consequências parecem ficar para depois.

Essa preocupação combina com a própria formação do autor. Para alguém que transita entre filosofia, ciência e ficção científica, a tecnologia não aparece simplesmente como uma ferramenta neutra. Ela também modifica relações, comportamentos e a maneira como entendemos conceitos que pareciam bastante estáveis.

A morte é um deles.

Durante muito tempo, a morte foi uma fronteira. A tecnologia poderia prolongar a vida, melhorar tratamentos e diminuir o sofrimento, mas ainda existia um limite bastante claro. Agora começamos a imaginar algo diferente: não apenas viver mais, mas continuar existindo de outras formas depois que o corpo deixa de existir.

A pergunta deixa de ser “podemos fazer isso?” e passa a ser “deveríamos fazer isso?”.

Essa é uma das características que tornam a ficção científica de Dodsworth interessante. A ciência não aparece apenas para criar um futuro impressionante. Ela serve para colocar personagens diante de situações que obrigam o leitor a repensar coisas que normalmente aceitamos sem questionar.

E, ao falar sobre seu processo criativo, o próprio autor parece reconhecer esse equilíbrio. Existe uma preocupação em discutir filosofia, ciência e ética, mas sem transformar a narrativa em uma espécie de aula. A ideia precisa funcionar dentro da história. O leitor precisa primeiro se importar com aquilo que está acontecendo para depois perceber que existe uma discussão maior por trás.

Talvez por isso a entrevista ao Papo Mutante seja um complemento interessante para quem pretende ler Repetição. Ao ouvir Dodsworth falar sobre o livro, fica mais fácil perceber que a tecnologia não é exatamente o assunto principal da história.

Ela é a ferramenta.

O verdadeiro assunto são as pessoas.

São os nossos medos, a nossa dificuldade de aceitar perdas, a vontade de controlar aquilo que não podemos controlar e a facilidade com que podemos transformar até sentimentos profundamente humanos em mercadoria quando existe alguém disposto a pagar por isso.

Essa preocupação também aparece quando o autor fala sobre política. Para Dodsworth, toda arte é política, porque toda história acaba revelando alguma coisa sobre o mundo em que foi criada. Em Repetição, isso aparece na relação entre tecnologia e poder, especialmente em uma sociedade na qual grandes empresas possuem influência cada vez maior sobre a maneira como as pessoas vivem.

Não é difícil olhar para o presente e encontrar ecos dessa discussão.

A ficção científica sempre teve essa capacidade de pegar alguma coisa que já existe e perguntar o que aconteceria se levássemos aquilo ao extremo. Foi assim com inúmeras histórias sobre vigilância, automação, inteligência artificial e manipulação genética. O interessante é que algumas dessas ideias, depois de décadas, deixaram de parecer tão absurdas.

Talvez seja exatamente por isso que autores como Alexey Dodsworth sejam importantes dentro da ficção científica brasileira. Não porque tenham respostas sobre o futuro, mas porque conseguem fazer perguntas antes que algumas delas se tornem problemas reais.

Repetição parece partir de uma pergunta simples: e se pudéssemos trazer alguém de volta através da tecnologia?

Mas talvez a pergunta que permaneça depois seja bem diferente.

Se uma máquina consegue reproduzir a voz, as memórias e os comportamentos de alguém que morreu, estamos realmente mantendo aquela pessoa viva ou apenas criando uma maneira tecnologicamente sofisticada de não aceitar que ela se foi?

É uma diferença pequena na aparência, mas enorme nas consequências.

E talvez seja justamente nesse intervalo entre aquilo que a tecnologia pode fazer e aquilo que nós desejamos que ela faça que Alexey Dodsworth encontre o espaço mais interessante para contar sua história. 

Assista ao Papo Mutante com Alexey Dodsworth na íntegra:

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