Ale Santos é convidado por organização russa para participar de concurso internacional de ficção científica

Autor brasileiro terá um conto inédito traduzido para o russo e levado à segunda edição da premiação internacional “História do Futuro”

NOTÍCIAS SCI-FI

Michael Douglas

9/16/20263 min read

A ficção científica brasileira acaba de ganhar mais um espaço fora do país. O escritor Ale Santos foi procurado por uma representante da organização russa responsável pela premiação internacional “História do Futuro”, que demonstrou interesse em seu trabalho e solicitou a tradução de um de seus contos para participação na iniciativa.

A segunda edição da “História do Futuro” recebeu 1.060 contos de autores de 27 países, reunindo escritores de diferentes partes do mundo. O Brasil está entre os países representados na seleção internacional. A organização também anunciou uma nova categoria voltada a propostas de roteiro para cinema, séries e animações.

No caso de Ale Santos, porém, a participação ganhou um significado especial justamente pela maneira como esse contato aconteceu. Segundo o próprio autor, uma representante da organização russa o procurou diretamente, interessada em conhecer e traduzir um de seus trabalhos.

Para Ale, o convite chamou atenção por acontecer justamente em um momento em que a ficção científica brasileira começa a ocupar novos espaços, que até então, não tinha. O escritor conta que ficou feliz ao perceber que seu nome estava sendo pesquisado fora do Brasil em busca de suas ideias sobre o futuro.

“Eu fiquei feliz porque sei como a ficção científica não necessariamente circula nos grandes lugares do Brasil”, relata o autor. Para ele, descobrir que pessoas na Rússia estavam procurando seu trabalho para conhecer suas ideias sobre o futuro trouxe uma sensação de reconhecimento que ultrapassa as fronteiras brasileiras.

A experiência também conversa diretamente com a maneira como Ale Santos constrói sua ficção. Conhecido por aproximar ficção científica, afrofuturismo e cultura brasileira, o autor já declarou que suas referências não estão apenas na literatura, mas também na música, incluindo nomes do rap brasileiro.

E é justamente essa identidade que ele decidiu levar para o novo conto.

A obra que será apresentada na iniciativa ainda é inédita e permanece em segredo. Ale, no entanto, revela que se arriscou bastante na construção da narrativa e incorporou elementos da cultura do funk, do trap e do rap brasileiros, mantendo o estilo que caracteriza sua escrita.

A escolha representa também um desafio. Ao levar referências muito específicas da cultura brasileira para uma publicação internacional, existe a possibilidade de que parte dessas referências não seja imediatamente compreendida por leitores de outra cultura. O próprio autor reconhece esse risco, especialmente quando se trata de elementos ligados à experiência das periferias brasileiras.

Ainda assim, Ale preferiu não abrir mão dessas referências para tornar a história mais facilmente compreensível fora do Brasil. Em vez de adaptar sua escrita a padrões europeus ou norte-americanos, ele decidiu preservar a cultura, a linguagem e as referências que fazem parte de sua própria forma de imaginar o futuro. A proposta, segundo o autor, era justamente manter a própria voz, mesmo diante de um público que talvez não esteja familiarizado com a realidade da quebrada brasileira.

“Tenho receio porque não sei se eles vão entender a pegada da quebrada, mas dá orgulho”, resume Ale.

O sentimento de orgulho aparece também na dimensão simbólica do convite. O autor não está apenas levando uma história para outro idioma: está levando uma determinada maneira brasileira de imaginar o futuro.

Ale Santos já possui experiência internacional. Em 2013, representou o Brasil na antologia de ficção científica Cautions, Dreams & Curiosities: The Tomorrow Project. Mais recentemente, sua produção também passou por diferentes formatos, incluindo literatura, quadrinhos e projetos ligados ao audiovisual.

Em 2026, o escritor também esteve entre os autores que participaram da programação dedicada à ficção científica brasileira na Bienal do Livro de São Paulo, em uma mesa ao lado de Felipe Castilho e Jana Bianchi.

Agora, a trajetória ganha mais um capítulo, desta vez com a Rússia procurando conhecer uma história brasileira sobre o futuro.

O conto continua inédito e seus detalhes permanecem em segredo. Por enquanto, o que se sabe é que ele chegará ao projeto internacional traduzido para o russo e carregando consigo referências que dificilmente poderiam ser confundidas com qualquer outra ficção científica: funk, trap, rap e a cultura da quebrada brasileira.

Mais do que adaptar sua escrita para atravessar fronteiras, Ale Santos decidiu fazer o caminho inverso: levar sua própria referência de Brasil para outro lugar do mundo.

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