Afinal, Ursula K. Le Guin inventava novos mundos ou ela redescobria nossas sociedades?
A influência da antropologia e da convivência com outras culturas na obra de uma escritora que gostava de imaginar outras sociedades.
JUNE GARCIA
10/17/20265 min read
Quando comecei a pensar na reformulação da coluna, eu sabia que queria falar sobre a influência da antropologia no desenvolvimento das obras da Ursula K. Le Guin. Seu pai, Alfred Kroeber, foi um antropólogo importante, sua mãe, Theodora Kroeber, também trabalhou com histórias e culturas indígenas, e ela acabou se tornando uma das escritoras de ficção científica mais interessantes e referenciadas quando o assunto é imaginar sociedades diferentes da nossa.
Em uma entrevista, perguntaram para a Ursula como a antropologia havia influenciado sua escrita. Ela respondeu com uma expressão de que gostei bastante: sort of osmosis. Algo como uma absorção por osmose, por convivência, sem que fosse necessário estudar formalmente uma disciplina para incorporar parte de sua maneira de olhar para o mundo.
Como filha de antropóloga, eu me identifiquei com essa resposta. Não quero dizer que minha experiência seja igual a dela, até porque mesmo dentro da área da antropologia existem inúmeros assuntos e minha mãe tem uma abordagem voltada principalmente à antropologia urbana. Porém, essa ideia de aprender por convivência é algo que esteve muito presente na minha trajetória. Nem tudo o que incorporamos vem de uma aula ou de um livro.
Só que a parte curiosa é que, às vezes, só reconhecemos determinada influência muito tempo depois, quando encontramos em outra pessoa uma maneira de pensar que também nos parece natural.
Não lembro se já comentei na coluna, mas apesar de trabalhar com tecnologia, eu sou formada em outras áreas e uma delas é Gestão Ambiental. Em 2011, ocorreu uma tragédia ambiental na Região Serrana do Rio de Janeiro, que acometeu também a minha cidade natal. Foi uma época bem complicada, porque além disso era meu primeiro ano do ensino médio em uma escola nova. Então, muitas coisas aconteceram na minha vida em um curto período de tempo.
Após isso, o tempo passou, escolhi outra graduação, me formei, trabalhei e só a alguns anos atrás eu retomei esse contato com a área ambiental, fiz essa graduação e hoje sou voluntária em uma ONG que tem por objetivo promover justiça climática em pequenas e médias cidades, especialmente aquelas que passaram por tragédias ambientais como foi o caso da minha cidade. Esse gancho todo é pra mostrar como as influências estão fortemente presentes nas nossas vidas e fazem parte daquilo que nos torna únicos como pessoas.
No caso da Ursula, seu pai dedicou boa parte da carreira ao estudo dos povos indígenas da Califórnia, enquanto sua mãe se tornou escritora, especialmente conhecida por Ishi in Two Worlds, a biografia de um homem Yahi que viveu seus últimos anos em contato com a sociedade branca responsável pela destruição de grande parte de seu povo.
E eis a influência na vida de Ursula, pois, em O Mundo de Rocannon, acompanhamos um etnólogo que trabalha para uma organização interestelar e viaja a um planeta habitado por diferentes povos. A premissa parece bastante conveniente para uma aventura de ficção científica: um pesquisador, um mundo desconhecido e diversas culturas para explorar.
Mas Rocannon não chega a esse planeta sem poder. Ele pertence a uma civilização capaz de viajar entre mundos, organizar expedições e produzir conhecimento sobre outras populações. Seu trabalho envolve observar e compreender sociedades que não compartilham necessariamente de suas referências.
Quando pensamos nisso, algumas perguntas aparecem: quem tem o direito de explorar um território? Quem decide como seus habitantes serão classificados? E o que acontece quando o conhecimento sobre uma sociedade é produzido por alguém que ocupa uma posição privilegiada em relação a ela?
Não estou dizendo que O Mundo de Rocannon seja uma alegoria perfeita do colonialismo, porque ainda se trata de uma aventura espacial, atravessada por elementos da fantasia. Mas a presença de um etnólogo como protagonista torna particularmente interessante observar como o desejo de conhecer outras culturas pode se relacionar com o poder de quem as observa, principalmente quando ocorre a invasão do planeta e a busca por livrar aquela sociedade dos seus invasores tecnologicamente superiores.
E aí mora uma contradição difícil de ignorar. A antropologia ajudou a preservar conhecimentos de povos ameaçados pela violência colonial, mas essa produção de conhecimento também aconteceu em instituições nas quais pesquisadores e pessoas pesquisadas não ocupavam posições equivalentes. Ishi colaborava com pesquisadores, mas também era um homem que havia perdido quase tudo o que conhecia e cuja presença era utilizada como atração pública, da mesma forma que hoje temos programas de mestrado e doutorado em antropologia no Brasil que são formados 100% por pesquisadores brancos, mesmo em uma sociedade tão distinta como a nossa, que tanto fala de sua miscigenação (não posso citar nomes, mas eu mesma estudei em um, porque cheguei a fazer Mestrado em Antropologia por toda essa influência familiar, só não levei adiante rsrs).
E essa não é uma questão simples, mas serve para nos mostrar que até mesmo a tentativa de compreender outra cultura pode estar atravessada pelas relações de poder de seu tempo. Aliás, o que não é atravessado pelo poder? A história é escrita por quem tem o poder de contá-la e sabemos quem a conta na maioria dos casos.
Outro romance do Ciclo de Hainish, A Mão Esquerda da Escuridão, também tem uma premissa similar. A história acompanha Genly Ai, um enviado humano que chega ao planeta Gethen para estabelecer contato com uma organização interestelar. Assim como Rocannon, ele precisa compreender uma sociedade diferente daquela em que foi criado.
Contudo, a dificuldade enfrentada por Genly Ai vai além de descobrir como os habitantes vivem, mas sim reconhecer os limites das próprias categorias que utiliza para interpretar o que vê. Isso porque os habitantes de Gethen não possuem um sexo permanentemente definido da mesma maneira que os humanos. Assim, para compreender aquela sociedade, ele precisa confrontar a possibilidade de que algumas de suas certezas não sejam universais.
Inclusive, isso não é nada de outro mundo, por isso minha provocação no título, já que diversas culturas tradicionais possuem pessoas que não se encaixam exclusivamente nas categorias convencionais de homem e mulher, como os muxes no México e as pessoas Two-Spirit entre povos indígenas da América do Norte (não posso afirmar que essa foi a base da Ursula para sua obra, mas com o convívio com diferentes culturas e amigos indígenas de seus pais, pode ser que tenha uma relação aí).
Acho que nesse ponto, Ursula chega - propositalmente ou não - ao cerne de uma problemática pertinente não só pra antropologia, como também outros saberes: existe uma diferença fundamental entre conhecer outra cultura e realmente tentar compreendê-la. Podemos acumular informações sobre os outros sem questionar a nós mesmos. O desafio começa quando reconhecemos que nossas próprias referências também têm uma história e não são necessariamente suficientes para explicar tudo aquilo que encontramos.
Para quem tiver mais interesse nessa questão, sugiro que deem uma pesquisada no caso da machadinha Krahô do Museu Paulista e sobre o ensaio satírico de antropologia do ritual do corpo entre os sonacirema. Eu adoro ambos, então se tu pesquisar mesmo, me manda mensagem no insta que será um prazer falar sobre!
Então, voltando à Ursula, precisamos entender que a influência da antropologia em sua obra não se trata de uma simples aplicação de teorias acadêmicas à literatura, mas sim a forma como ela conduz determinados assuntos em suas obras e sua curiosidade natural sobre a maneira como as pessoas vivem e organizam suas vidas.
É justamente aí que a ficção científica se torna um campo tão interessante, porque poucos gêneros permitem imaginar com tanta liberdade outras formas de organização social e, ao mesmo tempo, questionar por que tratamos tantas das nossas próprias convenções como se fossem inevitáveis. Afinal, imaginar uma sociedade diferente não é só inventar uma espécie, uma língua ou um planeta. É pensar em como seus habitantes entendem a si mesmos, quais valores orientam suas vidas e como suas certezas podem ser tão limitadas quanto às nossas.


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