A volta do Complexo de Frankenstein

Do fogo dos primeiros hominídeos à inteligência artificial, o medo de que nossas próprias criações provoquem a nossa destruição atravessa a história e alimenta algumas das narrativas mais fascinantes da ficção científica.

ROGÉRIO PIETRO

9/28/20264 min read

Quando os primeiros hominídeos aprenderam a fazer fogo há aproximadamente 1,7 milhão de anos, algum deles deve ter observado aquilo meio de longe, segurando o queixo, e pensado que aquela descoberta causaria o extermínio dos Homo erectus. É bem verdade que essa espécie desapareceu e foi substituída por outras, mas a causa da sua extinção não foi o fogo. Ao contrário, o fogo foi uma tecnologia que deve ter contribuído para que eles se perpetuassem durante quase 2 milhões de anos.

Não tão longe no tempo, a Revolução Industrial também trouxe incertezas e o medo de que as máquinas substituíssem todos os trabalhadores, causando demissões em massa, desemprego e o fim da civilização. Não por acaso, a peça de teatro tcheca RUR: Robôs Universais de Rossum, escrita após o início dessa revolução, explorou de maneira sublime as consequências da chegada dos Robôs nas fábricas, e o que isso causaria na humanidade.

E, por falar neles, os robôs sempre estiveram no topo da pirâmide da culpa quando o assunto é a criatura que se volta contra o criador. A ficção científica é repleta de histórias assim, contra as quais o mestre Asimov lutou com bravura. E fica claro que essa ideia de que o avanço científico e tecnológico traz nossa perdição, enraizada na cultura humana, sempre acompanhou as descobertas tecnológicas de cada era.

Esse fenômeno é bem conhecido e foi o próprio Asimov quem deu a ele um nome: Complexo de Frankenstein.

O clássico da ficção e do terror, escrito por Mary Shelley e publicado no primeiro dia do ano de 1818, materializa justamente a tragédia do Dr. Victor Frankenstein, talentoso cientista que deu vida a uma criatura sem nome, feita de partes de pessoas mortas. A obra é considerada o pilar da ficção científica moderna e é justamente nela que vemos a horrenda situação da criatura atormentando seu desafortunado e maldito criador. É o fogo do Homo erectus queimando a caverna com seus moradores dentro.

Esse complexo tem dominado a cultura e até mesmo alguns setores da sociedade desde o Século 19. Só o que mudou ao longo do tempo foi a sua roupagem. Ora era a criação da vida, ora uma viagem no tempo. Depois vieram os robôs e a possibilidade de uma revolta das máquinas. Em seguida foram os avanços da biotecnologia, acompanhados pelo medo de estarmos criando um apocalipse zumbi ou uma nova doença capaz de exterminar quase toda a humanidade.

Atualmente, o complexo se revestiu de uma nova capa: a inteligência artificial. E, de novo, o medo de que essa criação humana possa se voltar contra nós, ou ser o estopim de uma nova era distópica, retornou para assombrar nossos pesadelos mais primitivos, ou simplesmente render ótimas histórias de ficção científica.

Enquanto leitores, nós amamos o Complexo de Frankenstein. Ele gera tensão, incertezas, caos e sociedades devastadas. É a savana transformada em cinzas pela fogueira que nossos primos de 2 milhões de anos ousaram acender. São as cidades arruinadas por hordas de drones, em cujos subterrâneos se escondem os últimos humanos. É a sociedade descontruída pela IA que decidiu controlar tudo, desde aparelhos celulares até as bolsas de valores do mundo todo.

Nos tempos atuais, nada preocupa mais do que a possibilidade de uma IA fugir ao controle humano, se rebelar como os Robôs de Rossum e guiar a civilização para a próxima extinção. Nossa paixão por livros ou filmes distópicos alimenta esse medo, e esse medo alimenta as narrativas que surgem do Complexo de Frankenstein.

Com base nisso, é fácil notar que a maior ruptura tecnológica da atualidade, a IA, é o combustível perfeito para nossa sede de realidades pessimistas, nosso desejo de ver o “circo pegar fogo”. Gostamos de ver a civilização ruindo nas ficções, e não há nada de mal nisso, afinal, depois que fechamos o livro ou saímos do cinema, voltamos ao mundo real da rotina e dos boletos. Enquanto robôs zumbis caçadores de humanos estiverem presos no ambiente controlado da ficção científica, teremos uma válvula de escape para a chatice do dia-a-dia.

No entanto, é necessário reconhecer que ficção científica não é sinônimo de distopia. A especulação tecnológica também pode estar relacionada a presentes e futuros positivos e iluminados, sem que isso seja monótono. Acreditar que utopias sejam insossas é ignorar que Isaac Asimov (de novo ele!) criou um universo inteiro demonstrando como o Complexo de Frankenstein não é o único caminho. Em seu clássico livro Eu, Robô, o desfecho de todas as histórias leva a civilização a um futuro glorioso, sem que isso sequer cheire a tédio.

Imaginar futuros é papel da ficção especulativa.

O Complexo de Frankenstein, então, nasce do nosso medo do desconhecido, da nossa incapacidade de prever o futuro. É a mesma pergunta que nos persegue desde sempre. Será que o fogo vai consumir toda a caverna? Será que a máquina a vapor vai roubar todos os empregos? Será que as vacinas vão nos transformar em zumbis? Será que os robôs vão se rebelar contra nós? Será que as IAs vão exterminar a humanidade?

O desconhecido volta para nos assombrar dentro e fora da ficção. Mas, convenhamos que, a essa altura, já devíamos estar acostumados a saber que, no fim, nós sempre sobrevivemos até a próxima ameaça.

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