A teoria de que Os Flintstones e Os Jetsons coexistem no mesmo universo

E se esses dois universos fossem um só?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

5/9/20265 min read

A teoria de que Os Flintstones e Os Jetsons coexistem no mesmo universo

Quando pensamos em ficção científica, logo associamos a filmes, séries e livros, porém ela pode estar em mídias e situações que nem imaginamos.

Existem várias teorias sobre viagem no tempo, multiverso ou seres alienígenas que permeiam a base da ficção científica. Esta, por vez, pode estar em subcamadas de uma obra, não precisando, necessariamente, de carros voadores ou robôs tecnológicos para caracterizar-se. Uma crítica com um leve teor tecnológico ou abordagem científica pode ser suficiente para o gênero.

Por essa vertente, não é loucura pensar que Os Flintstones e Os Jetsons, ambas obras de animação criadas pelo estúdio Hanna-Barbera em 1960 e 1962, consecutivamente, podem ser enquadrados na ficção científica. E mais: que ambas são interligadas por um salto temporal ou, até mesmo, multiversos.

Eu explico:

Por mais que essas obras pareçam lúdicas e infantis, existem nelas subcamadas que podem atingir o público adulto. Inicialmente, a animação Os Flintstones não tinha o público infantil como alvo e era patrocinada pela marca de cigarros Winston, contendo, inclusive, cenas dos personagens consumindo o produto nas animações. Com o tempo, tendo o intuito de captar o público mais jovem, os filhos dos personagens foram sendo incluídos no desenho.

A série animada é retratada no período da Idade da Pedra, mas mostra uma realidade quase americana da época, com artefatos e eletrodomésticos adaptados incluídos em cenários pré-históricos, enquanto dinossauros desempenham inúmeras funções domésticas. E sobre esses animais, é possível que eles foram recriados após o mundo moderno sofrer um ataque de bombas atômicas. Com as explosões, os seres-humanos foram extintos e levados de volta à Idade da Pedra e, no processo, os espécimes embrionários sintéticos de dinossauros que estavam sendo desenvolvidos em laboratório, ganharam vida. Sendo assim, Os Flintstones não existem no passado da humanidade, mas sim no futuro.


Isso explica como os habitantes de Bedrock - a cidade pré-histórica da animação - tinham as mesmas ideias, culturas e tecnologias adaptadas que temos na atualidade. Os personagens que acompanhamos estão sempre em busca de reativar o senso de comunidade moderna que conhecemos hoje, mas usando as ferramentas que tinham à disposição. Ferramentas essas que, em sua maioria, eram os dinossauros.

Já nos primeiros episódios da série percebemos que os dinossauros falam e são desenvolvidos. A teoria para isso é que os espécimes de laboratório tinham sido geneticamente modificados. Isso explica a comunicação e a simbiose entre os dinossauros e os seres-humanos na animação. Por mais difícil que seja imaginar essa relação, podemos usar como exemplo os felinos que - na vida real - se adaptam à vida doméstica com o homem. Um outro argumento que pode explicar como os dinossauros falam na animação é que, em Os Flintstones, a terra passou por um longo período sem a dominância dos seres humanos e, durante esse tempo, a natureza desenvolveu esses grandes animais que, só depois, foram domesticados pelo homem.

Neste cenário pós apocalíptico atômico também observamos modificações genéticas nos seres humanos, pois o personagem principal, Fred Flintstones, tem habilidades sobre humanas: ele conduz seu carro de transporte com a força dos próprios pés. Seria, assim, um humano melhorado e adaptado para aquela nova realidade, com uma adição mutagênica atômica no seu DNA. Além disso, o personagem não tem o dedo mínimo e os pés são maiores, o que pode ser explicado pelo desuso do dedo menor e o uso excessivo dos pés. O corpo teria se adaptado para sobreviver.

Outra teoria que podemos imaginar é que ocorreu uma grande bagunça temporal na série, pois Fred Flintstone possui dois animais de estimação, além dos que sua família utiliza no dia a dia: um dinossauro e um tigre-dente-de-sabre. É importante ressaltar que, na realidade, humanos, dinossauros e grandes mamíferos nunca existiram no mesmo período da evolução.

Em 1965, cinco anos após o início da série Os Flintstones, foi incluído um elemento muito importante para essa discussão: o Grande Gazoo. Ele endossa várias teorias de que, a série, na Idade da Pedra, é, na verdade, uma ficção científica sutil. O Grande Gazoo é um cientista verde flutuante que foi encontrado por Fred e Barney após seu disco voador colidir com a terra. Gazoo tinha sido exilado de seu planeta natal por desenvolver um dispositivo do juízo final. O personagem alienígena tem vários talentos, como materialização de objetos, teletransporte, congelar o tempo, viajar no tempo e rejuvenescer qualquer pessoa.

Logo que é revelado aos amigos pré-históricos, o alienígena pergunta em que século estão, levantando a hipótese de que ele pode viajar no tempo. Só a adição desse personagem já poderia endossar a obra como ficção científica, mas ele, na verdade, assegura uma segunda teoria ou sub-teoria dentro dessa própria: a teoria de que Os Flintstones e Os Jetsons coexistem no mesmo universo.

Em Os Jetsons, temos uma sociedade tecnologicamente desenvolvida, porém com falta de um elemento importante para o ser-humano: ser funcionalmente útil e competente. Com tantas tecnologias e facilidades, os personagens da série animada quase esquecem como é cozinhar de verdade, vestir uma roupa com as próprias mãos ou fazer algo manualmente verdadeiro. Em uma cena icônica, um educador físico em uma vídeo aula orienta um exercício matinal e o único treino é alongar os dedos, visto que tudo que eles tinham que fazer era apertar um botão.

Mas não são apenas as tecnologias avançadas que definem a série Os Jetsons como ficção científica. Na animação, os personagens estão sempre estudando, trabalhando ou resolvendo alguma coisa, pois as facilidades os tornaram escravos de uma rotina exaustiva, sem espaço para interagir com a natureza ou entre si. Isso tudo constrói uma crítica social bem presente nas obras de ficção científica, como, por exemplo, no gênero cyberpunk, onde são representadas sociedades High Tech Low Life, ou seja, com alta tecnologia, mas com baixa qualidade de vida. Os personagens, imersos nessa realidade, sofrem de transtornos mentais por conta de toda pressão psicológica da rotina e do consumo exagerado de telas e hologramas, isso quando não apresentam implantes neuro-tecnológicos onde o mundo virtual fica dentro da mente.

Esse cenário futurista da série Jetsons, - onde existe tecnologia inclusive para teletransporte - junto com todo o contexto apresentado da série Flintstones, torna viável de imaginar que as duas séries se passam no mesmo universo e que, de maneira linear ou não, se complementam.

Em 1987, no especial ‘’Os Jetsons e os Flintstones se encontram’’, o personagem Elroy Jetson de Os Jetsons, desenvolve algo como uma máquina do tempo ou um teletransporte, que lhes permite viajar no tempo. Quando os personagens futuristas caem em uma realidade pré-histórica, eles acreditam que a manivela, configurada para ir para o futuro, estava com defeito, levando-os, assim, para o passado. Porém, com a teoria de que os Flintstones vivem no futuro, podemos acreditar que a máquina do tempo não estava com problema: eles realmente viajaram para o futuro. Um futuro pós-apocalíptico.

Muitas teorias sobre as duas séries são discutidas, porém o mais importante é que, ao assistir ou relembrar essas animações, agora como adultos, enxergamos um trabalho de conscientização que antes, como consumidores infantis, não conseguíamos. Isso aproxima essas séries ainda mais da ficção científica ou, pelo menos, especulativa.

O fato dos Flintstones serem o futuro de uma sociedade que conhecemos em Os Jetsons é apenas um brinde de todo um contexto especulativo e socialmente crítico. Afinal, que futuro queremos para a humanidade? Para onde o caminho que estamos seguindo vai nos levar?