A Revolução dos Bichos - George Orwell
O poder dita o caráter?
RESENHAS LITERÁRIAS
5/9/20262 min read
A Revolução dos Bichos — George Orwell
Respirem fundo e entrem nessa resenha de mente aberta, pois vamos falar de mais uma obra de George Orwell.
Os bichos da Fazenda do Solar viviam uma rotina laboriosa e sem muitos privilégios. As galinhas produziam ovos, os leitões engordavam para o abate, as vacas produziam leite e os cavalos aravam a terra com seus músculos imponentes. O Sr. Jones, dono da fazenda, fazia o máximo para que seu trabalho fosse reconhecido e sua propriedade prosperasse, mesmo que isso significasse escravizar os animais.
Uma bela noite, um dos porcos mais velhos grunhiu uma voz de esperança. Reuniu os outros animais no estábulo e contou que sonhara com uma grande revolução, onde os animais prevaleciam e nenhum homem colocava cabresto ou dava ordens sobre eles. A semente estava plantada.
Depois de algum estranhamento e de um tempo de maturação, os porcos encabeçaram, quase por acidente, a grande revolução. Bola-de-Neve e Napoleão, os dois porcos mais inteligentes da bicharada, fundaram o Animalismo e estabeleceram sete mandamentos que garantiriam a igualdade e a liberdade de todos. A Fazenda do Solar passou a se chamar Fazenda dos Bichos, o Sr. Jones foi expulso, e os animais trabalhavam agora em benefício próprio.
Parecia perfeito. Mas o poder raramente permanece dividido por muito tempo.
Uma grande rivalidade surgiu entre Bola-de-Neve e Napoleão, dando início a uma disputa que logo se transformou em tirania. E foi aí que Orwell mostrou sua maestria: de forma crítica e cirúrgica, ele constrói uma metáfora poderosa sobre a sociedade humana e nossa relação com o poder. Os sete mandamentos, criados num momento de ideais puros, foram sendo silenciosamente modificados para privilegiar os donos do poder, até que toda a filosofia da revolução se resumiu a uma única frase devastadora:
"Todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que os outros."
É impossível não se perguntar: o que corrompe um ideal? Talvez a resposta seja o próprio poder, que age como um veneno de ação lenta. Começa com pequenas concessões, justificativas razoáveis, exceções necessárias, e termina na inversão completa de tudo aquilo que um dia foi sagrado. Orwell nos lembra que a opressão raramente chega anunciada. Ela se instala aos poucos, com o consentimento dos que estão cansados demais para questionar e a cumplicidade dos que acreditam que vai durar pouco.
A Fazenda dos Bichos não é apenas uma crítica ao totalitarismo soviético, contexto em que foi escrita. É um espelho. E o desconforto de se olhar nele é exatamente o que faz esse livro ser tão necessário hoje quanto era em 1945.
Um livro de poucas páginas e escrita encantadora, com um valor sem precedentes. Finalizei com aquele sentimento raro de quando cada minuto de leitura valeu a pena. Um dos meus favoritos, sem hesitar.
Leiam. Não vão se arrepender.