A pedra prolongou o braço, a escrita prolongou a memória, e a IA o que perpetua?

Quando começamos a refletir sobre o uso incessante de inteligência artificial, temos uma grande margem de questionamentos que qualquer leitor de ficção científica pode perder algum tempo pensando.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

7/28/20262 min read

Uma vez eu estava pesquisando sobre transumanismo, na intenção de encontrar menções a gadgets, acessórios ou eletrônicos modernos. Mas grande foi minha surpresa quando descobri que o transumanismo é muito mais do que isso. Ou melhor, muito antes disso.

O transumanismo é um conceito que aborda algo que vai além do humano. Tanto um implante cibernético no cérebro quanto um simples óculos de grau. Mas é um erro pensar que tudo isso só começou agora. Pela definição, o transumanismo começou na época das cavernas, onde o pau, o fogo e a pedra se tornaram extensão dos seres humanos. O ser humano deixou de ser quem era originalmente e se tornou algo evoluído, algo a mais.

Pensando por esse prisma, a pedra prolongou ou transformou o alcance físico do ser humano, nas caçadas ou até mesmo na manufatura de rodas, lanças ou artigos dessa natureza. Depois, a fim de perpetuar as memórias humanas por toda a eternidade, mesmo quando esse emissor de memórias morresse, a escrita foi desenvolvida. Além de usada para comunicação, a escrita foi usada para transformar memórias em algo eterno. Pensamentos cravados em pedras, pintados em cavernas e digitados em algum documento no Drive.

Agora, nós, seres viventes deste século, estamos começando a perceber uma nova extensão do ser humano. A extensão do pensar. Do raciocinar, do refletir. As amadas e odiadas: INTELIGÊNCIAS ARTIFICIAIS.

Hoje, você não escolhe mais um filme na Netflix. Ele é escolhido para você. Você tem a falsa sensação de que está escolhendo, mas só está decidindo a partir das opções que o algoritmo já decidiu. Ok, a defesa da tecnologia é que isso serve para otimizar o tempo do usuário. Na teoria, a IA aprende com seus gostos e começa a sugerir coisas semelhantes. Mas quem é 100% alguma coisa? Qual ser humano não é uma metamorfose ambulante?

Quem pode controlar o desejo e a curiosidade humana de querer assistir a um filme de animação depois de assistir a um filme sangrento de terror? Nós somos vivos. E isso é o que difere de tudo e de todos os outros seres vivos: nós somos conscientes e sencientes. A IA nunca vai entender isso — pelo menos, não por enquanto.

Quando decidimos acreditar 100% em um sistema eletrônico que promete escolher justamente o que nem sabemos que queremos, abrimos margem para sermos uma marionete nas mãos de uma tecnologia. Mas o problema não está aí. Isso seria ficção científica demais (já pensou ser escravo do seu ChatGPT?). O problema maior é que, em toda tecnologia, existe um ser humano operando por trás.

Uma grande corporação pode comprar as intenções de uma IA que decide o que as pessoas comem, assistem ou gostam?

Talvez eu esteja assistindo e lendo ficção científica demais. Ou seja justamente isso que pode me salvar de ser uma cópia de tantos outros, influenciados pelo algoritmo.

Vamos quebrar a IA agora: escolha uma música sertaneja no Spotify logo após ouvir um rock pesado. (Risos.)

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