A música eletrônica e a ficção científica: como Sterzi transforma OVNIs, sonhos e distopias em arte sonora

A ficção científica não escolhe caminhos para existir. Hoje conversamos com o DJ STERZI, um produtor de música eletrônica brasileiro, que se inspira no mundo da sci-fi para criar suas músicas.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

5/22/20268 min read

A música, assim como a ficção científica, são artes que expressam os sentimentos mais íntimos da alma humana. Além disso, ambas possuem algo em comum: trabalham constantemente com a tecnologia.

A aproximação entre música, ciência e ficção científica não começou recentemente. No início do século XX, movimentos artísticos como o Futurismo italiano já defendiam que a arte precisava representar velocidade, indústria e tecnologia. Os futuristas acreditavam que motores, fábricas e eletricidade eram a nova estética do mundo moderno.

Isso influenciou músicos experimentais que passaram a explorar ruídos mecânicos e sons artificiais. Mais tarde, na década de 1940, surgiram experiências com música concreta e eletrônica, utilizando gravações manipuladas, fitas e sintetizadores primitivos.

Foi nesse momento que música e ficção científica começaram a compartilhar o mesmo imaginário: laboratórios, ciência, máquinas e futuros desconhecidos.

E se essa amizade entre música e ficção científica estava apenas começando, ela se fortaleceu ainda mais com o lançamento do satélite Sputnik em 1957 e a chegada do homem à Lua em 1969. Esses acontecimentos fizeram artistas imaginarem viagens interestelares, alienígenas e sociedades futuristas.

E talvez nenhum gênero combine tanto com a ficção científica quanto a música eletrônica.

Hoje, conversamos com Sterzi, DJ brasileiro que transforma mistérios cósmicos, sonhos e teorias sobre a realidade em atmosferas sonoras futuristas.

Tudo começou com um sonho

A ficção científica frequentemente tratou sonhos como viagens interdimensionais ou acessos a realidades alternativas. Philip K. Dick, um dos nomes mais influentes da sci-fi, explorava constantemente personagens presos entre sonho, simulação e realidade em obras como Ubik e Flow My Tears, the Policeman Said.

No cinema, Inception transformou sonhos em espaços compartilhados, manipuláveis e navegáveis, onde cada camada possui regras próprias de tempo e percepção.

Com Sterzi, não foi diferente.

Mesmo já possuindo uma forte ligação com a estética futurista, tudo ganhou uma nova dimensão após um sonho extremamente marcante. Foi dessa experiência que nasceu a faixa “Crazy Sonho”.

Acompanhada por uma arte visual inspirada diretamente naquilo que ele viu enquanto dormia, a música acabou se tornando uma forma de eternizar uma sensação que, aos poucos, começou a desaparecer da memória.

“Eu acredito que a ficção científica sempre esteve muito ligada ao meu estilo de som, mas começou a aparecer de forma mais clara em 2021, quando fiz uma música chamada ‘Crazy Sonho’. A faixa representava um sonho muito louco que eu tive, e eu pedi para o designer transformar aquilo em uma capa. Hoje eu já não lembro exatamente como era o sonho, porque essas memórias vão se apagando, mas a arte mostra bem o quão surreal aquilo parecia”, contou o DJ brasileiro.

                                                           

Capa de música que foi inspirada pelo sonho do DJ.

A inspiração final veio do universo

Se aquele sonho despertou um novo lado criativo em Sterzi, foi em 2022 que sua identidade artística mergulhou completamente na ficção científica.

Pesquisas sobre OVNIs, vida extraterrestre e mistérios cósmicos acabaram se tornando uma obsessão criativa. Segundo ele, foi impossível separar esse fascínio de sua música.

A ficção científica não existe apenas na literatura ou no cinema. Ela também vive no imaginário humano. Está na capacidade de olhar para o vazio do espaço e enxergar ali os próprios questionamentos existenciais.

“Mas o momento em que isso realmente começou a influenciar minha identidade artística foi em 2022, quando comecei a pesquisar histórias sobre OVNIs e vida extraterrestre. Eu fiquei realmente obcecado por esse universo e acabou sendo impossível não levar isso para a minha música também”, explicou.

A inspiração não segue uma linha única

Segundo o artista, suas inspirações vão muito além da ficção científica tradicional. Ele afirma que busca referências em histórias e teorias que, para ele, carregam possibilidades reais sobre a origem da humanidade e sobre a própria realidade.

Relatos de encontros alienígenas e fenômenos inexplicáveis fazem parte constante do universo que influencia suas produções. Entre as obras que mais impactaram sua visão artística está The Matrix, descrito por ele como um ponto de virada na forma de enxergar o mundo.

Sterzi também cita forte interesse pelas teorias de Graham Hancock sobre civilizações antigas altamente avançadas anteriores à Mesopotâmia. Segundo ele, hipóteses arqueológicas levantam questionamentos sobre aquilo que aprendemos como origem da civilização humana.

Essa combinação entre mistérios ancestrais, teorias sobre realidades simuladas e narrativas envolvendo vida extraterrestre acabou moldando não apenas sua identidade sonora, mas também toda a proposta conceitual da gravadora Ancient Elegance.

Em sua faixa “Abduzido”, isso aparece de forma ainda mais evidente. A música trabalha um dos conceitos mais clássicos da ficção científica: a possibilidade de uma abdução alienígena.

                                                                 Escute a faixa mencionada acima.

Cada faixa funciona como um portal

Assim como escritores criam mundos através das palavras, Sterzi constrói narrativas usando sons, atmosferas e texturas musicais.

Para leitores e espectadores de ficção científica, é comum encontrar histórias que transportam o público para outras realidades. Segundo o DJ, sua música busca exatamente esse efeito.

“Eu realmente imagino um universo único para cada música. Cada elemento é proposital. Eu sempre tento produzir minhas faixas com a menor quantidade possível de elementos, para que cada um deles realmente faça diferença. Não existe nada ali colocado por acaso”, explicou.

Ele também afirma que a estrutura das músicas é construída como uma jornada emocional, alternando momentos intensos e atmosféricos até atingir um clímax.

“Para mim, a música funciona quase como um portal, algo que faz as pessoas questionarem a realidade e entrarem por alguns minutos em outro universo.”

A música eletrônica sempre pareceu o som do futuro

Para Sterzi, a relação entre ficção científica e música eletrônica acontece naturalmente, já que o próprio gênero sempre carregou uma estética futurista.

Ele cita Daft Punk como um dos maiores exemplos dessa união entre sci-fi e música, principalmente através da identidade robótica construída pela dupla.

O artista também aponta que festivais eletrônicos já possuem um visual extremamente próximo da ficção científica, com lasers, painéis de LED, efeitos tecnológicos e figurinos futuristas. Segundo ele, até artistas como Alok frequentemente trabalham visuais que parecem saídos de filmes sci-fi.

Ainda assim, Sterzi acredita que o cinema poderia explorar muito mais a música eletrônica dentro da ficção científica.

OVNIs brasileiros podem virar álbum conceitual

Entre seus projetos futuros, Sterzi revelou a vontade de criar um álbum inspirado em alguns dos casos ufológicos mais famosos do Brasil.

Entre eles estão a Operação Prato, o Caso ET de Varginha e a Noite Oficial dos OVNIs.

Segundo o DJ, essas histórias carregam mistério, tensão e uma sensação constante de que existe algo além daquilo que conhecemos.

A ideia seria transformar esses casos em uma experiência audiovisual imersiva, misturando música, estética futurista e narrativa sci-fi.

Inteligência artificial como extensão criativa

Sterzi também comentou sobre o avanço da inteligência artificial na música eletrônica, tema que ainda gera debates dentro da cena.

Para ele, toda nova tecnologia costuma causar resistência inicialmente. O DJ relembra que isso já aconteceu quando os artistas deixaram os vinis e migraram para CDs, depois para pendrives e posteriormente para controladoras digitais.

Na visão dele, nenhuma dessas mudanças destruiu a criatividade humana.

Hoje, Sterzi utiliza inteligência artificial principalmente na criação de vocais.

Segundo ele, muitas vezes grava ideias usando a própria voz e depois utiliza IA para transformar o resultado final, permitindo criar exatamente aquilo que imagina sem depender de vocais genéricos de bancos de samples.

Para o produtor, a inteligência artificial funciona mais como ferramenta criativa do que como substituição artística.

Música, visual e atmosfera fazem parte da experiência

Para Sterzi, sua música nunca funciona sozinha. Toda a estética visual da Ancient Elegance é construída para complementar a experiência sonora.

Capas, iluminação, painéis de LED e direção visual são pensados para ampliar a mensagem transmitida em cada faixa.

“Muitas vezes, a própria capa ajuda a sintonizar o ouvinte com a mensagem da música. Quando a pessoa entende aquele universo visual, ela acaba escutando a faixa de uma forma completamente diferente”, explicou.

Segundo ele, o objetivo dos shows é fazer o público sentir que está entrando em um universo próprio, e não apenas assistindo uma apresentação musical convencional.

Distopia, espiritualidade e questionamentos existenciais

Questionado sobre a atmosfera predominante em suas músicas, Sterzi afirma que trabalha constantemente entre elementos distópicos e reflexões espirituais.

Como espírita, ele acredita que a humanidade caminha lentamente para uma evolução coletiva e harmoniosa. Ainda assim, artisticamente prefere trabalhar atmosferas mais intensas e misteriosas justamente para provocar questionamentos no ouvinte.

“Minhas músicas costumam ser bastante intensas e com simbologias que fazem a pessoa despertar e questionar a realidade. Pessoalmente, eu acredito em um futuro mais evoluído e harmonioso. Mas artisticamente, minhas músicas acabam transmitindo muito mais uma sensação distópica e misteriosa”, afirmou.

Um universo entre Interstellar e o desconhecido

Ao imaginar como seria o universo perfeito para representar suas músicas, Sterzi descreve um cenário cheio de mistérios, civilizações antigas tecnologicamente avançadas, espiritualidade, OVNIs e questionamentos sobre consciência.

O DJ ainda revelou que está produzindo um remix inspirado na trilha sonora de Interstellar, que deve ser lançado futuramente.

Para ele, música e ficção científica caminham juntas porque ambas trabalham diretamente com emoção, atmosfera e memória.

É impossível pensar em Star Wars ou Interstellar sem lembrar imediatamente de suas trilhas sonoras.

Na visão do artista, a música é um dos principais elementos responsáveis por transformar universos fictícios em experiências inesquecíveis.

Confira as tracks do DJ STERZI nas plataformas de áudio, e siga ele nas redes sociais.

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