A Montanha Delta mistura thriller militar e ficção científica em uma história sobre conspirações e manipulação
Lançamento da ficção científica nacional, aborda temas totalmente atuais, e até secretos. Confira minha opinião sobre A montanha delta do autor Rodrigo Bartnik de Andrade.
RESENHAS
Michael Douglas
7/30/20263 min read
Há livros que mostram exatamente o que prometem desde a primeira página. Outros preferem mudar de rumo ao longo da narrativa. A Montanha Delta faz parte do segundo grupo.
Quando comecei a leitura, a impressão era de que eu estava diante de um thriller militar clássico. A narrativa apresenta setores secretos da Casa Branca, helicópteros cruzando Washington, cientistas sendo retirados às pressas de seus laboratórios e levados para uma instalação secreta localizada no Brasil. Tudo indica que a história seguirá por esse caminho, explorando operações governamentais, espionagem e conflitos geopolíticos.
Mas, conforme as páginas avançam, a trama começa a expandir seus horizontes. O suspense militar continua presente, porém passa a dividir espaço com elementos típicos da ficção científica, levando a história para um terreno muito mais amplo do que eu imaginava quando iniciei a leitura.
Foi justamente essa mudança de direção que mais me chamou a atenção.
Mais do que apresentar mistérios ou grandes revelações, A Montanha Delta utiliza sua premissa para discutir um tema que sempre considero fascinante na ficção científica: o poder das grandes nações de controlar narrativas.
Ao longo da história, surge a ideia de que governos, instituições e meios de comunicação podem influenciar a forma como enxergamos os acontecimentos. Não apenas manipulando informações, mas criando versões da realidade capazes de colocar países uns contra os outros, justificar conflitos ou beneficiar grupos específicos.
Esse é um dos aspectos que mais gosto quando encontro esse tipo de ficção científica. Não porque eu considere tudo uma conspiração, mas porque o gênero sempre foi um excelente espaço para levantar perguntas desconfortáveis. Até que ponto a informação que recebemos representa a realidade? Quanto daquilo que consumimos diariamente é fruto de interesses políticos, econômicos ou estratégicos?
Existe ainda outro conceito apresentado no livro que achei particularmente interessante: a possibilidade de produzir tantas notícias falsas, tão absurdas e numerosas, que, quando uma informação verdadeira finalmente vier à tona, ela seja automaticamente tratada como mais uma mentira.
Essa talvez tenha sido a ideia que permaneceu comigo depois do término da leitura.
Naturalmente, o livro também possui pontos que, na minha opinião, poderiam ser melhores.
Peter Venkman recebe um desenvolvimento consistente. O leitor compreende seus medos, conflitos e motivações, o que faz suas decisões terem peso ao longo da narrativa.
Já a cientista Ângela Benevitz acaba ficando um pouco abaixo desse mesmo nível. Ela é apresentada como uma profissional extremamente competente, mas senti falta de vê-la desempenhando um papel mais decisivo na resolução dos conflitos. Em alguns momentos, tive a impressão de que seu potencial era muito maior do que aquilo que efetivamente foi mostrado na história.
Outro personagem que me conquistou rapidamente foi Zaqueu. Não posso comentar muito sobre ele para evitar spoilers, mas sua introdução demonstra bastante planejamento por parte do autor. Desde sua primeira aparição existe uma sensação de que aquele personagem possui um propósito importante dentro da narrativa, e essa construção foi uma das coisas que mais gostei no livro.
Também senti falta, em alguns trechos, de uma narrativa que confiasse mais na interpretação do leitor. Em vez de afirmar diretamente que um personagem estava assustado ou confuso, acredito que algumas dessas emoções poderiam ter sido transmitidas pelas ações, pelos diálogos ou pela própria construção das cenas. É o conhecido princípio do show, don't tell. Felizmente, isso aparece apenas em momentos pontuais e não compromete a experiência geral da leitura.
No fim das contas, A Montanha Delta entrega exatamente aquilo que promete: uma ficção científica nacional recheada de conspirações, segredos governamentais, operações militares e questionamentos sobre informação, poder e manipulação.
É um livro indicado para leitores que gostam de thrillers conspiratórios, especialmente aqueles que apreciam histórias que fazem a imaginação continuar trabalhando mesmo depois da última página. Afinal, talvez o maior mérito da obra não seja responder perguntas, mas fazer o leitor sair da leitura pensando sobre como o mundo realmente funciona — ou pelo menos sobre como ele poderia funcionar nos bastidores.
Se você gosta de ficção científica com uma forte dose de suspense político e teorias conspiratórias, A Montanha Delta certamente merece entrar na sua lista de leituras.
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