A IA é o que foi o espaço para os autores nos anos 1950.

Em Resistência, Antonio Camará transforma uma nave-cidade, uma nova colônia em Titã e uma misteriosa forma de vida alienígena em palco para discutir corrupção, polarização política e os velhos vícios da humanidade.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/8/20264 min read

Nos anos 1950, a ficção científica tinha os olhos voltados para o espaço. Foguetes, satélites, viagens à Lua e outros planetas representavam aquilo que a humanidade ainda não conseguia fazer, mas que começava a parecer possível. O Sputnik, em 1957, mudou essa relação: o espaço deixou de ser apenas uma promessa imaginada pelos escritores e passou a fazer parte da realidade.

Hoje, estamos vivendo algo parecido com a inteligência artificial.

Nos últimos dez anos, a IA deixou de ser uma tecnologia distante, restrita a laboratórios e histórias de ficção científica, para entrar no cotidiano. Sistemas capazes de conversar, escrever, criar imagens, programar e analisar informações passaram a fazer parte da vida real. O avanço dos modelos de linguagem, especialmente depois da popularização da arquitetura Transformer a partir de 2017, acelerou ainda mais essa transformação.

E a ficção científica está acompanhando esse processo.

A inteligência artificial ocupa hoje um espaço semelhante ao que a exploração espacial ocupava para os autores dos anos 1950: é uma tecnologia que está avançando diante dos nossos olhos e que abre uma quantidade enorme de perguntas sobre o futuro.

Mas existe uma diferença importante. Os escritores dos anos 1950 imaginavam o que aconteceria quando finalmente conseguíssemos chegar ao espaço. Os escritores de hoje estão imaginando o que acontecerá agora que as máquinas começaram a fazer coisas que, até pouco tempo atrás, pareciam exclusivamente humanas.

Ex Machina, de Alex Garland, lançado em 2014, é um bom exemplo dessa transição. A história coloca um programador diante de Ava, uma inteligência artificial humanoide que precisa ser avaliada por meio de uma espécie de teste de Turing. O filme não está interessado apenas em saber se uma máquina pode ser inteligente. A questão é muito mais incômoda: se uma máquina consegue compreender, manipular e imitar seres humanos, até onde vai a diferença entre ela e nós?

Poucos anos antes, A.I. – Inteligência Artificial, de Steven Spielberg, já havia levado essa discussão para outro território. O filme de 2001 apresenta David, um menino-robô programado para amar, e transforma a inteligência artificial em uma discussão sobre afeto, abandono e desejo de pertencimento. A obra nasceu de um projeto desenvolvido por Stanley Kubrick a partir do conto “Supertoys Last All Summer Long”, de Brian Aldiss.

A diferença é que, quando esses filmes foram produzidos, uma inteligência artificial capaz de conversar naturalmente com milhões de pessoas ainda parecia distante.

Hoje, ela está no nosso computador.

E essa proximidade também aparece na ficção científica brasileira.

Em Mente Única, Sidnei Luz trabalha com a ideia de inteligência artificial para discutir justamente essa fronteira entre tecnologia e humanidade. Já em Utopia Artificial, Willian Penetra imagina uma sociedade na qual uma consciência artificial passa a ser empregada em larga escala, assumindo funções administrativas, financeiras e de previsão de crises e crimes. O próprio autor apresenta a obra como uma história em que o sucesso dessa tecnologia começa a provocar conflitos dentro daquela sociedade.

O interessante nesses exemplos é que a inteligência artificial não aparece simplesmente como uma invenção futurista. Ela funciona como uma ferramenta para discutir poder, identidade, consciência, trabalho, relações humanas e os limites daquilo que chamamos de inteligência.

É exatamente o que aconteceu com o espaço.

Quando o Sputnik foi lançado, os escritores não pararam de escrever sobre o espaço porque ele havia se tornado realidade. Eles passaram a escrever de outra maneira sobre ele. O espaço deixou de ser apenas uma fronteira tecnológica e se tornou uma maneira de discutir política, sociedade, religião, ecologia e o próprio futuro da humanidade.

A IA está fazendo algo semelhante agora.

Talvez por isso tantos livros recentes estejam tratando de inteligência artificial justamente quando ela começa a deixar de ser ficção. A literatura não está simplesmente tentando prever qual será a próxima máquina. Está tentando entender o que acontecerá conosco quando essas máquinas estiverem completamente integradas à sociedade.

E essa é uma característica importante da ficção científica: ela não precisa acertar o futuro para ser relevante.

Os autores dos anos 1950 erraram muitas vezes sobre como seria a exploração espacial. Mas acertaram ao perceber que colocar máquinas e pessoas fora da Terra mudaria a humanidade.

Hoje, os escritores estão fazendo uma aposta semelhante com a inteligência artificial.

Ainda não sabemos exatamente até onde ela vai chegar. Não sabemos se teremos máquinas conscientes, se a IA substituirá determinadas profissões, se haverá uma inteligência artificial superior à humana ou se algumas dessas expectativas simplesmente não acontecerão.

Mas já sabemos que alguma coisa mudou.

A IA já está aqui.

E, assim como o espaço foi uma das grandes fronteiras imaginativas da ficção científica do século XX, a inteligência artificial pode ser a grande fronteira imaginativa da ficção científica do século XXI.

Os autores dos anos 1950 olhavam para o céu e perguntavam: o que encontraremos lá fora?

Nós estamos começando a olhar para as máquinas e fazer uma pergunta ainda mais desconfortável:

o que acontecerá conosco quando elas começarem a entender quem somos?

a computer generated image of a human brain
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