A guerra nunca acabou. Só aprendeu a usar luvas tecnológicas

No universo criado por Leonardo Serruya, um esporte holográfico substitui o campo de batalha — mas a morte continua sendo a mesma. Talvez a gente não tenha evoluído tanto quanto gosta de pensar.

RESENHAS

Michael Douglas

6/28/20262 min read

Os esportes sempre acompanharam a tecnologia disponível em cada época. Lança, osso, depois bola, depois eletrônicos, depois isso que Leonardo Serruya imaginou — uma modalidade que funde MMA, realidade virtual, realidade aumentada e projeções holográficas em um espetáculo de força sobre-humana. Lutadores levantando dez toneladas com os próprios punhos, arenas que se transformam em universos inteiros através de projetores, trajes futuristas que protegem (até certo ponto) os corpos envolvidos.

Mas a pergunta interessante não é "que tecnologia teremos no futuro". É: para que, exatamente, vamos usá-la?

O detalhe mais revelador do livro não é o holograma, nem a força sobre-humana, nem a velocidade da narrativa. É a origem desse esporte: duas províncias em guerra que, ao finalmente alcançarem a paz, decidem canalizar o conflito que as definiu durante gerações para dentro de uma arena. A violência que não foi extinta, foi institucionalizada, embalada, vendida como entretenimento.

E aqui está o ponto que esse universo expõe sem dizer em voz alta: erguemos uma "paz" que ainda depende, estruturalmente, de alguém continuar lutando, continuar arriscando o corpo, continuar pagando o preço que antes era pago nos campos de batalha. Só que agora com plateia, patrocínio e ranking.

É difícil não pensar nisso como uma metáfora afiada sobre os próprios esportes de combate que já existem no mundo real. Trocamos exércitos por atletas, mas o ritual de assistir corpos colidindo por glória, dinheiro e prestígio nacional continua intacto. A tecnologia só deu um verniz mais bonito ao espetáculo.

O detalhe mais perturbador do livro é também o mais simples: morrer na arena holográfica significa morrer de verdade. A "luta fantástica", cercada de efeitos visuais e poder sobre-humano, não é um jogo no sentido seguro da palavra — é violência real disfarçada de espetáculo digital. E isso desmonta, de cara, qualquer ilusão de que a evolução tecnológica tenha tornado o conflito humano mais seguro ou mais civilizado. Só tornou mais imersivo.

É dentro dessa estrutura impiedosa que conhecemos Arthur, o jovem lutador invicto que ousa desafiar o Rei, o número 1 do ranking. A ambição dele — igual a de qualquer atleta que sonha em chegar ao topo — é genuína e compreensível. Mas o livro nunca deixa o leitor esquecer que esse sonho de grandeza está apoiado sobre uma estrutura que continua, literalmente, cobrando vidas.

Talvez essa seja a provocação mais honesta do livro: olhamos para o futuro esperando que ele resolva nossos impulsos mais primitivos, mas a história sugere o contrário — a tecnologia só nos dá ferramentas mais sofisticadas para continuar fazendo exatamente o que sempre fizemos. Trocamos lanças por luvas holográficas, e ainda assim seguimos pagando entrada para ver alguém arriscar a vida em nome de um título.

A escrita simples e direta de Serruya ajuda a história a fluir sem esforço, mas é justamente essa fluidez que torna mais fácil engolir, sem perceber de imediato, o quanto o cenário criado é uma crítica disfarçada de entretenimento — exatamente como o próprio esporte que ele descreve.

Até onde nossa audácia pode nos levar? Talvez a resposta seja desconfortavelmente simples — exatamente até onde sempre nos levou. Só que agora, com efeitos especiais.

A obra nacional Arma Humana do autor Leonardo Serruya pode ser adquirida clicando aqui.

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