A ficção científica está trilhando caminhos medievais

Dragões, castelos, reis e tecnologia: por que esses dois gêneros parecem estar cada vez mais próximos?

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/23/20263 min read

Durante meus caminhos pelas leituras, há pelo menos 1 ano, pude me deparar com pelo menos 3 obras que misturam ficção científica e fantasia medieval/era medieval. E isso me acendeu um alerta.

Eu não vou dizer que está nascendo uma tendência, porque, para isso, eu deveria ter lido todas as últimas obras dos últimos 10 anos, mas, para mim, pelo menos, têm aparecido cada vez mais obras com essa temática.

É curioso que a ficção científica, desde que nasceu, passou pelos laboratórios sinistros de Mary Shelley, voou pelo espaço com Arthur C. Clarke e passou pelos planetas cheios de robôs de Isaac Asimov. Antes disso, também viajou para um futuro distante imaginado pelo brasileiro Jeronymo Monteiro, em 1947.

Agora, podemos acompanhar a chegada da ficção científica em um território que, em sua grande maioria, era dominado pela escrita fantasiosa. Dragões, montanhas, castelos e candelabros. Tudo isso era ambientação para histórias de fantasia, porém, percebo que esses ambientes também podem abrigar histórias da nossa querida ficção científica.

E talvez exista uma explicação teórica interessante para isso. O crítico e teórico da ficção científica Darko Suvin propôs o conceito de “estranhamento cognitivo”, em que a ficção científica apresenta ao leitor uma realidade diferente da nossa, mas construída a partir de algum elemento que pode ser compreendido dentro de uma lógica. Suvin também usa o conceito de novum, aquilo que é novo dentro daquele universo e que provoca uma mudança nas regras que conhecemos. Pode ser uma viagem no tempo, uma nova tecnologia, uma mutação, uma alteração da realidade ou até uma sociedade completamente diferente.

E pensando dessa maneira, talvez a ficção científica nunca tenha precisado necessariamente de cidades futuristas, robôs ou naves espaciais. O que ela precisa é de uma ideia que altere aquilo que entendemos como realidade e que nos faça pensar sobre as consequências disso. É justamente aí que acho interessante essa aproximação com a fantasia medieval.

A experiência mais recente que tive foi com a obra A Ruptura da Ordem, de Rodrigo Bartinik, uma premissa que leva um cientista jovem para uma realidade (ou tempo) onde existiam castelos, reis e a tecnologia não era avançada como sempre lemos em ficção científica. Nessa obra em específico, achei curioso como o autor usou um aparato de salto temporal para misturar vários tipos de realidades. Urbana como a nossa, urbana pós-apocalíptica e uma realidade medieval, onde o Sol e a órbita da Terra foram alterados, e aqueles pobres moradores daquela realidade tiveram a vida impactada por isso.

O interessante é que, mesmo com castelos e uma ambientação que facilmente poderia estar em uma fantasia medieval, existe um elemento científico que muda completamente a forma como enxergamos aquele mundo. O passado, o presente e as consequências de uma alteração na realidade passam a fazer parte da mesma história.

Há não muito tempo, também conheci a obra O Caminho de Gaia, do autor nacional Roger Dorl. Nela, uma cidade inteira foi sequestrada e levada para outro planeta. Nessa trama, o autor caprichou na ambientação de uma era medieval. A magia misturada com ficção científica.

E talvez seja justamente essa mistura que torne essas obras tão interessantes. A fantasia já possui uma enorme capacidade de construir mundos completamente diferentes do nosso. A ficção científica, por outro lado, possui essa característica de pegar uma ideia nova e perguntar: e se isso realmente acontecesse? Quando os dois gêneros se encontram, podemos ter um mundo com a estética e os elementos da fantasia, mas com uma explicação, uma tecnologia ou uma hipótese científica conduzindo aquela realidade.

Se não fosse exemplo suficiente, há mais de um ano li o livro Planeta Wolf 1061C, de John Lindemann, autor também brasileiro. A trama se disfarça de fantasia medieval, tratando-se de uma obra hard sci-fi cujo desenvolvimento não é refém da construção da ação de seu clímax, desafiando o leitor com questões filosóficas da trama e, ao mesmo tempo, sobre a nossa história recente.

E isso é o que mais me chama atenção nessas obras. A ficção científica não precisa abandonar seus questionamentos para entrar em um castelo. Ela pode continuar falando sobre ciência, tecnologia, sociedade, tempo, humanidade e futuro, mesmo que seus personagens estejam caminhando por uma floresta, vivendo em um reino ou diante de um castelo.

Se eu baseasse minha tese em minhas experiências, poderia dizer que a fantasia e a ficção científica estão cada vez mais unidas. E isso é ótimo. Mais universos, mais possibilidades e, por que não, poderíamos ter um dragão cibernético com mutação genética feita em laboratório?

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