A ficção científica está de volta ao Prêmio Jabuti

Em 2026, Ao Meu Redor, de André Vianco, e Moeda de Troca, de Lucas Mota, estão entre os semifinalistas de Romance de Entretenimento. Mas eles não chegaram sozinhos: há décadas, livros que imaginam futuros, sociedades distópicas, novas tecnologias e outros mundos vêm encontrando espaço entre os indicados e vencedores do maior prêmio literário do Brasil. Relembre essa história.

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Michael Douglas

9/30/20265 min read

Criado em 1958 pela Câmara Brasileira do Livro, o Prêmio Jabuti atravessa quase sete décadas acompanhando as transformações da literatura brasileira. Ao longo desse período, a ficção científica apareceu de maneiras diferentes entre as obras reconhecidas pela premiação: às vezes assumidamente como gênero, outras vezes misturada à distopia, ao fantástico, ao horror ou à especulação sobre o futuro.

Em 2026, essa história chega a um novo capítulo. A 68ª edição do Jabuti anunciou nesta terça-feira, 29 de setembro, os dez semifinalistas de cada uma das 23 categorias. Na categoria Romance de Entretenimento, estão Ao Meu Redor, de André Vianco, e Moeda de Troca, de Lucas Mota, além de Cartografia para Caminhos Incertos, de Ian Fraser. Os cinco finalistas serão conhecidos em 14 de outubro. A cerimônia de premiação acontece em 27 de outubro, na Sala São Paulo.

Uma história que começou antes da ficção científica ganhar espaço como gênero

A presença da ficção científica no Jabuti não começou com a criação da categoria Romance de Entretenimento. Um dos registros mais antigos é Xisto no Espaço, de Lucia Machado de Almeida, premiado em 1968 na categoria Literatura Juvenil. Naquele período, o Jabuti ainda tinha uma estrutura bastante diferente da atual, e a ficção científica não possuía uma categoria própria.

Quase uma década depois, O Fruto do Vosso Ventre, de Herberto Sales, levou o Jabuti de Romance em 1977. O livro apresenta uma sociedade submetida a um regime autoritário e a uma série de mecanismos de controle, aproximando a narrativa da tradição distópica. A obra é um dos exemplos mais significativos de como a especulação sobre o futuro e sobre a organização da sociedade já aparecia entre os livros reconhecidos pelo prêmio.

Em 1983, foi a vez de José J. Veiga com Aquele Mundo de Vasabarros. A narrativa apresenta uma sociedade rigidamente hierarquizada, marcada pelo autoritarismo e pela desigualdade. A obra costuma ser aproximada da literatura fantástica e da distopia, mostrando novamente como as fronteiras entre os gêneros sempre foram porosas na literatura brasileira.

Nos anos seguintes, outros títulos associados ao insólito e à especulação também passaram pelo Jabuti, entre eles O Olho Enigmático, de Moacyr Scliar, e Cabra-Cega, de Carlos Nascimento Silva. Essa trajetória ajuda a mostrar que a presença da ficção científica no prêmio não se resume aos livros que carregam uma classificação de gênero explícita.

O Jabuti começa a abrir espaço para os gêneros

Uma mudança importante aconteceu no início da década de 2020. Segundo a própria história oficial do prêmio, a criação da categoria Romance de Entretenimento e a alteração da antiga categoria Romance para Romance Literário foram feitas justamente para permitir que obras de gêneros como policial, fantasia e ficção científica recebessem reconhecimento dentro da premiação.

A mudança teve efeito imediato.

Em 2020, chegaram à disputa de Romance de Entretenimento obras como A Telepatia São os Outros, de Ana Rüsche, Viajantes do Abismo, de Nikelen Witter, Serpentário, de Felipe Castilho, e Back in the USSR, de Fábio Fernandes.

No ano seguinte, a presença do gênero cresceu ainda mais. Apocalipse Segundo Fausto, de Marcos de Brito, Parthenon Místico, de Enéias Tavares, Senciente Nível 5, de Carol Chiovatto, e Velhos Demais para Morrer, de Vinícius Neves Mariano, chegaram à lista de finalistas. Corpos Secos, escrito por Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado, venceu a categoria Romance de Entretenimento em 2021.

Em 2022, a ficção científica voltou a ocupar um espaço expressivo. O Último Ancestral, de Alê Santos, O Céu entre Mundos, de Sandra Menezes, Porco de Raça, de Bruno Ribeiro, e Olhos de Pixel, de Lucas Mota, apareceram na disputa. Olhos de Pixel, uma obra de ficção científica de orientação cyberpunk, venceu o Romance de Entretenimento daquele ano.

Da ópera espacial ao Brasil imaginado

Em 2023, A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê, de Ian Fraser, chegou à final do Jabuti. A obra leva a ficção científica para uma galáxia marcada por referências à cultura nordestina, apresentando uma espécie de ópera espacial brasileira. A própria editora classifica o livro como fantasia e ficção científica e registra sua presença como finalista do Jabuti na categoria Romance de Entretenimento.

A presença do gênero continuou nos anos seguintes. Em 2024, Colapso, de Roberto Denser, apareceu entre os semifinalistas de Romance de Entretenimento.

Em 2025, Nada Mais Será Como Antes, de Miguel Nicolelis, chegou à lista de semifinalistas da categoria. O romance de ficção científica colocou no Jabuti uma narrativa construída a partir de uma perspectiva fortemente ligada à ciência e às transformações tecnológicas.

E chegamos a 2026

Agora, a história ganha dois novos capítulos.

Entre os dez semifinalistas de Romance de Entretenimento do 68º Prêmio Jabuti estão Ao Meu Redor, de André Vianco, e Moeda de Troca, de Lucas Mota.

Para Moeda de Troca, a presença é especialmente interessante porque Lucas Mota já havia vencido o Jabuti em 2022 com Olhos de Pixel. Agora, quatro anos depois, o autor retorna à mesma categoria com uma nova obra.

Já André Vianco aparece com Ao Meu Redor, levando um autor historicamente associado à literatura de horror e ao fantástico para uma disputa que reúne diferentes vertentes da chamada literatura de entretenimento.

Por enquanto, nenhum dos dois podem ser chamados de finalista. A lista definitiva será reduzida de dez para cinco obras em 14 de outubro.

Uma ficção científica que nunca ficou parada

Olhando para essa trajetória, fica difícil falar de uma única presença da ficção científica no Jabuti. O gênero aparece em diferentes momentos e com diferentes formas: na aventura espacial de Xisto no Espaço, na distopia de O Fruto do Vosso Ventre, nas sociedades imaginárias de José J. Veiga, nas narrativas especulativas contemporâneas e, mais recentemente, no cyberpunk, no afrofuturismo, na ficção científica espacial e nas histórias que misturam tecnologia, política, horror e questões ambientais.

Uma lista possível dessa trajetória reúne obras como Xisto no Espaço, O Fruto do Vosso Ventre, Aquele Mundo de Vasabarros, O Olho Enigmático, Cabra-Cega, Namíbia, Não!, Iluminarás, Não Há Amanhã, Enterre Seus Mortos, A Telepatia São os Outros, Viajantes do Abismo, Serpentário, Back in the USSR, Senciente Nível 5, Velhos Demais para Morrer, Parthenon Místico, Corpos Secos, Apocalipse Segundo Fausto, O Último Ancestral, Porco de Raça, O Céu entre Mundos, Olhos de Pixel, A Vida e as Mortes de Severino Olho de Dendê, Colapso, Nada Mais Será Como Antes, chegando aos semifinalistas de 2026.

O mais interessante nessa história talvez seja justamente observar como a ficção científica brasileira mudou junto com o próprio Jabuti. Se nos primeiros registros ela aparecia misturada às categorias tradicionais, hoje existe uma categoria que reconhece explicitamente gêneros como a ficção científica e a fantasia.

E, em 2026, ela continua chegando à disputa.

Agora resta esperar os cinco finalistas de Romance de Entretenimento, que serão anunciados em outubro, e descobrir quais dessas histórias continuarão na corrida pelo Jabuti deste ano.

Essa publicação teve inspiração e referência de dados no conteúdo postado nas redes sociais de Eberson Terra, autor de ficção científica com lançamento entitulado ''Sonhos enferrujados'' publicado pelo selo Neon da Editora Buzz. Você pode conferir a publicação no instagram clicando aqui.

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