A ficção científica é um terreno fértil para metáforas

A ficção científica inventa outros mundos para nos fazer enxergar melhor os problemas do nosso próprio mundo.

REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA

Michael Douglas

9/26/20263 min read

Quando pensamos em ficção científica, logo é difícil não pensar em quantas coisas ela nos faz pensar. Em quantas causas sociais ela pode trabalhar ou questões abordar. E isso não é por acaso.

A ficção científica é um terreno fértil para discutir temas e problemas sociais.

No meu entender, quando estamos de frente com uma trama irreal, temos mais chance de abraçar o real da nossa vida. A ficção científica mostra o problema, mas sem ser explícita. Às vezes é irônica, às vezes é até direta, porém acompanhamos esse tema abordado em uma nave alienígena, no espaço sideral ou em uma revolta de robôs. E então, tudo fica mais fácil. Até que o grande susto vem: "o autor estava falando da gente enquanto falava daquele alienígena..."

E assim, a sci-fi consegue abraçar o leitor, explicar os temas do debate e fazer ele mesmo criar suas críticas antes que saia correndo de medo daquele problema que também é dele.

Ursula K. Le Guin é um dos maiores exemplos de como isso pode funcionar. Em Os Despossuídos, ela cria dois mundos muito diferentes entre si para discutir questões políticas, econômicas e sociais. A história acompanha Shevek, um físico que vive em Anarres, uma sociedade organizada a partir de princípios anarquistas, e que viaja para Urras, um planeta marcado por outras formas de organização social e econômica.

Le Guin não precisa simplesmente pegar o nosso mundo e dizer ao leitor o que está errado nele. Ela inventa dois mundos e coloca suas diferenças diante de nós. O leitor acompanha aquela sociedade, entende suas regras, observa seus problemas e começa a comparar as duas formas de existência.

E é aí que a coisa fica interessante.

Porque enquanto estamos lendo sobre Anarres e Urras, estamos também pensando em coisas que existem aqui. Poder, propriedade, desigualdade, liberdade, trabalho, organização social e a própria maneira como uma sociedade decide viver. O planeta é inventado, as pessoas são personagens, mas os questionamentos são muito reais.

Isso também mostra como a ficção científica consegue trabalhar questões sociais sem precisar transformar a história em um discurso.

Você está acompanhando uma viagem para outro planeta. Está conhecendo outra cultura, outra sociedade, outra maneira de enxergar o mundo. Só que, aos poucos, percebe que aquilo que parecia tão distante começa a questionar coisas que você considerava normais.

E essa é uma das grandes forças da ficção científica.

Ela pode nos tirar do nosso mundo para nos fazer enxergar melhor o mundo em que vivemos.

Isso acontece quando a ficção científica fala de desigualdade, exploração, poder, colonialismo, preconceito, guerra, tecnologia ou da maneira como enxergamos aqueles que são diferentes de nós. O autor pode colocar uma sociedade inteira em outro planeta, inventar uma espécie alienígena ou imaginar uma humanidade vivendo centenas de anos no futuro. Mas, no fundo, ainda estamos falando de seres humanos.

É claro que nem toda ficção científica precisa ter uma grande discussão social. Às vezes queremos apenas acompanhar uma nave atravessando a galáxia, descobrir um planeta desconhecido ou ver uma criatura alienígena perseguindo alguém pelos corredores de uma estação espacial. E tudo bem. A sci-fi também pode ser simplesmente uma boa história.

Mas quando existe uma discussão por trás da história, ela não precisa ficar gritando para o leitor.

Algumas obras permanecem na nossa cabeça justamente porque terminamos o livro, fechamos a última página e continuamos pensando naquilo. Depois percebemos que aquela história estava falando de algo muito maior do que imaginávamos.

A ficção científica consegue fazer isso porque cria uma espécie de distância. Podemos olhar para um problema quando ele está acontecendo com um robô, com um alienígena ou com uma sociedade que sequer existe. Não precisamos admitir imediatamente que estamos olhando para nós mesmos.

Até percebermos.

E quando percebemos, já estamos envolvidos com aquela discussão.

É por isso que, para mim, a ficção científica nunca foi apenas sobre o futuro. Muitas vezes ela usa o futuro para falar do presente. Usa outros planetas para falar da Terra. Usa alienígenas para falar sobre nós. Usa tecnologias que ainda não existem para discutir problemas que já existem há muito tempo.

A sci-fi consegue inventar mundos que não existem para nos fazer questionar aquele em que vivemos.

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