A ficção científica de 2026 parece menos interessada no futuro
Dos trabalhadores espaciais de Frontier aos companheiros artificiais de SOULM8TE, passando pelo isolamento de Atomfall e pelo otimismo científico de Devoradores de Estrelas, os lançamentos mais comentados do ano revelam uma mudança curiosa no gênero
REFLETINDO FICÇÃO CIENTÍFICA
Michael Douglas
6/13/20263 min read
Há alguns anos, eu provavelmente descreveria a ficção científica como um gênero obcecado pelo futuro. Era para lá que tudo apontava. Novas tecnologias, novas sociedades, novos mundos. A pergunta central parecia ser sempre a mesma: "Como viveremos daqui a cem, mil ou dez mil anos?"
Mas olhando para os lançamentos que estão chamando atenção em 2026, fico com a impressão de que essa pergunta perdeu espaço para outra.
A ficção científica continua falando sobre o futuro. Continua cheia de espaçonaves, inteligência artificial, viagens interestelares e cenários pós-apocalípticos. O curioso é que esses elementos parecem cada vez menos importantes. Eles continuam lá, mas agora funcionam mais como ferramentas para discutir questões muito presentes do que como tentativas de imaginar o amanhã.
Pense em Frontier, a graphic novel de Guillaume Singelin que chega ao Brasil nos próximos meses. Em teoria, ela é uma história de exploração espacial. Seus personagens vivem espalhados pelo Sistema Solar, trabalham em mineração de asteroides e dependem de tecnologias avançadas para sobreviver. Ainda assim, o que tornou a obra tão elogiada na Europa não foi sua visão tecnológica. O que chamou atenção foi a forma como ela retrata trabalho, desigualdade e exploração econômica. O espaço de Frontier não é um lugar de aventura. É um lugar de emprego.
Isso talvez diga muito sobre a época em que vivemos.
Durante grande parte do século XX, a ficção científica foi alimentada pela expectativa de que o progresso tecnológico resolveria problemas. Mesmo as distopias costumavam girar em torno de governos autoritários ou máquinas fora de controle. Hoje, muitos autores parecem partir de uma suspeita diferente: a de que a tecnologia muda rapidamente, mas as questões humanas permanecem.
É uma ideia que aparece também em SOULM8TE, derivado do universo de M3GAN. A premissa envolve uma androide criada para substituir uma companheira falecida. É fácil imaginar versões dessa história que tratassem apenas dos perigos da inteligência artificial. Mas o que parece interessar aos criadores não é a máquina em si. É o vazio emocional que levou alguém a procurá-la.
A mesma sensação aparece em Devoradores de Estrelas. Apesar de toda a engenharia, matemática e ciência que sustentam a trama criada por Andy Weir, o que fez tantos leitores se apaixonarem pelo livro foi algo muito mais simples: a relação construída entre personagens isolados diante de circunstâncias impossíveis. O fascínio tecnológico existe, mas ele não é o coração da história.
Talvez o exemplo mais revelador seja Atomfall. O jogo, que agora ganhará uma adaptação para televisão, se passa em uma Inglaterra marcada por um desastre nuclear. Há mistérios, conspirações e elementos típicos da ficção científica pós-apocalíptica. Mas, no fundo, a obra parece interessada em algo mais próximo da experiência contemporânea: a sensação de viver em um mundo onde ninguém sabe exatamente em quem confiar.
Não é difícil entender por que tantas histórias estão caminhando nessa direção.
Vivemos em uma época em que a inteligência artificial já participa de conversas, produz imagens e escreve textos. Empresas privadas lançam foguetes regularmente. Cientistas discutem edição genética com uma naturalidade que pareceria absurda há poucas décadas. O futuro tecnológico deixou de ser especulação distante e passou a fazer parte das notícias da semana.
Talvez por isso a ficção científica tenha mudado seu foco. Em vez de tentar prever invenções, ela passou a investigar consequências.
O novo filme de Steven Spielberg sobre contato extraterrestre parece seguir essa tendência. Pelo que foi divulgado até agora, a questão central não é como os alienígenas chegaram até nós. A pergunta mais interessante é o que acontece com a humanidade depois que descobrimos que não estamos sozinhos.
É uma diferença sutil, mas significativa.
Durante muito tempo, a ficção científica procurou responder como seria o futuro. Hoje, ela parece mais preocupada em entender quem somos enquanto caminhamos em direção a ele.
Como leitor, acho difícil não achar isso fascinante.
Porque talvez o gênero esteja fazendo aquilo que sempre fez de melhor. Não prever tecnologias. Não acertar invenções. Não antecipar datas.
Mas usar o futuro como uma forma de observar o presente.
E, olhando para as histórias que estão surgindo em 2026, tenho a impressão de que a ficção científica nunca esteve tão próxima da realidade — justamente porque deixou de tentar adivinhar o amanhã e passou a prestar mais atenção nas pessoas que vivem o agora.


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