A consolidação das distopias no cinema brasileiro

Neste artigo, fazendo jus à nova era do gênero no País, elencarei alguns filmes que mostram como a distopia brasileira ganha força ano após ano, provando que esse sempre foi um gênero nosso, mas só agora estamos admitindo.

CUCA NUÑES

6/23/20266 min read

No último ano, meu hiperfoco abraçou um novo interesse: filmes de distopia; o que obviamente se deu após eu me debruçar na literatura do gênero.

Comecei pelo topo da escada de popularidade, assistindo a clássicos como Metrópolis (1927), No Ano de 2020 (1973) e Stalker (1979). Depois, saltei para os representantes do cinema cult, onde me deparei com Parque da Punição (1971), Cartas de um Homem Morto (1986) e Ladrão de Sonhos (1995). Como você deve imaginar, todos excelentes.

Contudo, algo me surpreendeu. Quando cheguei ao cinema brasileiro, me deparei com o suco distópico em sua nobre pureza. É vergonhosa a demora, eu sei. Eu, como brasileiro, devo desculpas aos meus conterrâneos, mas foi algo que suspendi por ignorância.

Neste artigo, fazendo jus à nova era do gênero no País, elencarei alguns filmes que mostram como a distopia brasileira ganha força ano após ano, provando que esse sempre foi um gênero nosso, mas só agora estamos admitindo.

A distopia brasileira é um deleite

Existe uma ideia equivocada, muito confortável para quem não lê ficção científica brasileira, de que distopia é coisa de fora. Afinal, os expoentes populares são oriundos do mercado anglófono, como George Orwell, Margaret Atwood, Ray Bradbury, Aldous Huxley e Philip K. Dick. Temos como representante nessa categoria o espetacular Ignácio de Loyola Brandão, com Não Verás País Nenhum, mas não consigo pensar em outro autor tupiniquim que tenha alcançado tamanho renome.

Os queridos Eric Novello (Ninguém Nasce Herói), Fábio M. Barreto (Filhos do Fim do Mundo) e Lucas Mota (Olhos de Pixel), apenas para citar alguns exemplos, certamente fazem jus ao reconhecimento, mas são autores contemporâneos.

Já nessas obras, podemos perceber o nosso próprio sotaque nas distopias. As características do gênero brasileiro ainda ganham forma, mas o que pude reparar, em uma primeira impressão, é que são mais intimistas e menos tecnológicas.

Temos uma cara própria, pintada de tinta e com resquícios de colonização, escravidão e ditadura; e isso é fantástico. Somos um país periférico e, como tal, contamos histórias diferentes. Mas, além disso, revela-se também a alegria, o sentimento e a luta peculiar do povo brasileiro — um casamento perfeito.

De 2010 para cá (suspeito que por questões conflitantes na política nacional), a ideia de prever o futuro ascendeu no cinema brasileiro. Seria, então, a distopia brasileira a próxima onda após a exploração de temáticas sociais como a seca no Nordeste e a vida nas favelas? Bem, não tenho gabarito para afirmar, portanto me limito a sugerir.

Quando um diretor brasileiro aponta a câmera para o futuro, o que aparece no enquadramento é o presente levemente desfocado. É por isso que esses filmes incomodam tanto; e é por isso que são tão necessários.

Selecionei seis obras que considero essenciais para entender essa inflexão. Nem todas são ficção científica no sentido estrito: algumas namoram com o realismo mágico, flertam com o docudrama e até beijam o faroeste.

Mas todas partem do mesmo impulso: usar o gênero como bisturi para abrir o Brasil e mostrar o que tem dentro.

Branco Sai, Preto Fica (2014)

Em 1986, a polícia invadiu um baile de black music na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, e atirou na multidão. Dois homens saíram de lá com as vidas permanentemente marcadas.

Adirley Queirós pegou esse evento real, colocou os próprios sobreviventes na frente da câmera e jogou por cima disso tudo um elemento de ficção científica: um viajante vindo do futuro com a missão de investigar o ocorrido e provar a culpa do Estado.

O resultado é uma obra ímpar, uma distopia que não flui da imaginação, mas do registro.

Bacurau (2019)

Antes que alguém diga que Bacurau não é ficção científica, adianto que tudo bem, o rótulo pode ser discutido.

Mas é inegável que marcas de uma grande distopia estão lá. Uma sociedade em colapso, um Estado ausente ou conivente, indivíduos explorados por forças externas.

Além disso, um detalhe torna esse cinema inconfundivelmente brasileiro: os habitantes de Bacurau recorrem à jurema, psicoativo sagrado enraizado na espiritualidade do sertão nordestino. Isso não soa como tecnologia alternativa ou esquecida?

Na pequena Bacurau, no sertão pernambucano, drones sobrevoam o céu com planos de extermínio da população local. Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles constroem um filme que começa como retrato de uma comunidade explorada e termina como western de resistência.

Divino Amor (2019)

Em 2027, a religião se infiltra na infraestrutura social brasileira. O carnaval foi substituído por raves gospel e existem drive-thrus de confissão.

Gabriel Mascaro nos apresenta Joana, interpretada por Dira Paes, uma mulher que usa seu posto num cartório para dificultar divórcios, convicta de que está cumprindo um propósito divino.

Isso traz à tona uma reflexão sobre o impacto da religiosidade na sociedade humana, nas políticas públicas e no controle instrumentalizado da população. O diretor organizou tendências reais num cenário coerente e projetou alguns anos à frente.

A Nuvem Rosa (2021)

Iuli Gerbase escreveu o roteiro em 2017, filmou em 2019 e lançou em janeiro de 2021, quando o mundo ainda estava de joelhos com a pandemia. A coincidência é desconcertante, eu sei.

No filme, uma nuvem tóxica força toda a humanidade ao confinamento permanente em um timing impressionante.

O que me chamou a atenção, contudo, foi a técnica narrativa, na qual há a apresentação de um conflito enganoso, que permanece em mudança até o fim do filme.

Medida Provisória (2022)

Em sua estreia na direção, Lázaro Ramos parte de uma premissa que soa absurda até que você olha para o cenário da política nacional e percebe que não.

Num Brasil distópico, o Congresso aprova uma medida que obriga todos os cidadãos negros a retornarem à África como forma de reparação histórica pela escravidão. A ideia, que qualquer pessoa de bom senso reconheceria como grotesca, chega embalada pelo vocabulário institucional, com justificativas, votações e decretos, até que a prática seja normalizada pela pela inércia de quem prefere não se comprometer.

O Último Azul (2025)

O que uma sociedade obcecada pela produtividade faz com quem ela considera improdutivo? Nesse filme, o governo decreta que todos os idosos acima de 75 anos devem ser transferidos para colônias habitacionais remotas, liberando os jovens para produzir sem o peso de cuidar dos mais velhos.

Tereza, de 77 anos, recebe a ordem e recusa. Em vez disso, parte numa viagem pelos rios da Amazônia para realizar um último desejo.

O etarismo emerge como tema central no cinema brasileiro, e Gabriel Mascaro (sim, ele de novo) o trata sem condescendência. Tereza é uma mulher com vontade de vida; mesmo em um país que tenta remover ou atrasar direitos básicos à população idosa.

É uma jornada mágica pela Amazônia, algo que só poderia ser retratado por alguém que identifica os percalços das populações ribeirinhas.

O cinema distópico brasileiro é um conjunto de vozes que encontrou uma linguagem para falar do país. Cada um dos filmes desta lista olha para o Brasil e enxerga algo que já está aqui, só que levado um pouco mais longe, com o volume um pouco mais alto.

Se você ainda não mergulhou nessa produção, este é o momento. Comece por qualquer um da lista. A ordem não importa muito. Todos eles chegam no mesmo lugar: bem no meio do peito.


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