A cidade que vira ficção científica uma vez por ano

Um futuro movido a vapor: o festival que celebra um mundo que nunca existiu

NOTÍCIAS SCI-FI

Michael Douglas

6/20/20263 min read

Existe algo fascinante no steampunk que vai muito além dos óculos de aviador, engrenagens de bronze e máquinas movidas a vapor.

Talvez seja porque o gênero nos convida a imaginar um futuro que nunca existiu.

Enquanto a maior parte da ficção científica olha para frente, imaginando inteligências artificiais, viagens interestelares e tecnologias impossíveis, o steampunk faz algo diferente: ele pergunta como seria o mundo se a Revolução Industrial nunca tivesse terminado. Como seria a tecnologia atual se computadores e circuitos nunca tivessem substituído pistões, caldeiras e mecanismos movidos a vapor?

Recentemente descobri que existe um lugar onde essa pergunta ganha vida de forma impressionante.

Todos os anos, a pequena cidade de Ōamaru, na Nova Zelândia, realiza um dos maiores festivais steampunk do mundo. Durante alguns dias, suas ruas parecem deixar o século XXI para trás e entrar em uma realidade alternativa onde exploradores vitorianos, inventores excêntricos e capitães de aeronaves convivem naturalmente.

O cenário ajuda bastante. Diferentemente de muitos eventos temáticos que precisam construir cenários artificiais, Ōamaru possui um dos conjuntos arquitetônicos vitorianos mais preservados do país. Caminhar por suas ruas já é como voltar no tempo. Durante o festival, porém, a experiência vai além da recriação histórica.

Porque o steampunk nunca foi sobre reproduzir o passado.

Ele é sobre reinventá-lo.

O gênero nasceu da combinação entre a estética da Era Vitoriana e a imaginação da ficção científica. É um mundo onde dirigíveis cruzam os céus, computadores funcionam com engrenagens, exploradores atravessam continentes desconhecidos e cientistas desafiam as leis da natureza utilizando tecnologias impossíveis.

Ao observar as imagens do festival, a sensação é de estar vendo personagens que escaparam das páginas de Júlio Verne, H.G. Wells e de romances pulp do início do século XX. Algumas fantasias lembram diretamente as aventuras de Vinte Mil Léguas Submarinas. Outras parecem inspiradas por A Máquina do Tempo. Há também criações tão extravagantes que poderiam facilmente existir em universos como A Liga Extraordinária ou em adaptações modernas de Sherlock Holmes com uma dose generosa de ficção científica.

O mais interessante, porém, não são as roupas.

É a criatividade.

Muitas das peças são produzidas artesanalmente pelos próprios participantes. Ferramentas antigas ganham novas funções. Objetos descartados se transformam em equipamentos futuristas. Um simples relógio pode virar o núcleo energético de uma máquina imaginária. Um conjunto de tubos de cobre pode se tornar parte de um traje de explorador interplanetário.

Existe algo quase poético nessa ideia.

Em uma época em que a tecnologia se torna cada vez mais invisível, encapsulada em telas lisas e dispositivos minimalistas, o steampunk faz o caminho oposto. Ele transforma a tecnologia em espetáculo. Expõe suas engrenagens. Exagera seus mecanismos. Celebra o ato de construir.

Talvez seja por isso que o gênero continue atraindo fãs décadas depois de seu surgimento.

No fundo, o steampunk não é apenas uma estética. É uma forma de imaginar realidades alternativas. Um exercício coletivo de criatividade que mistura história, fantasia e ficção científica sem se preocupar muito com limites.

E olhando para festivais como o de Ōamaru, fica fácil entender por quê.

Por alguns dias, uma pequena cidade da Nova Zelândia deixa de ser apenas uma cidade. Ela se transforma em um portal para um universo paralelo onde o futuro chegou movido a vapor.

E, sinceramente, esse parece ser um dos futuros alternativos mais divertidos já imaginados pela ficção científica.

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