8 Paradoxos de Bootstrap pra quem gosta de viagens no tempo

Talvez o futuro da ficção científica pareça tão antigo porque ele não é feito de invenções, mas de tudo aquilo que conseguiu continuar existindo.

RAFAEL KAPIWARA

6/21/20265 min read

                                                 Imagem: Interstellar (2014) / Divulgação Warner Bros.

8 Paradoxos de Bootstrap pra quem gosta de viagens no tempo

“Mas o que é paradoxo de Bootstrap?” talvez você esteja se perguntando. Pra explicar quero que abra um pouquinho a imaginação por algumas linhas.

Rato de livros, você encontra num alfarrabista, o manuscrito original do seu escritor preferido. Palavra por palavra teclada na máquina de escrever. Alguns comentários feitos à caneta. Trechos inteiros cortados e outros escritos na mão. Enfim, não é a versão impressa da primeira edição. Você paga no pix sem pensar duas vezes, metade de suas economias vai embora.

Ao ler aquelas páginas, percebe que ele é ainda mais parecido contigo. Mas o escritor faleceu há alguns anos e então você decide viajar no tempo pra encontrá-lo. Na máquina de viagem no tempo você digita a data do cabeçalho do manuscrito. A decepção é tamanha quando você descobre que ele quer jogar no Corinthians e odeia literatura. Você insiste que ele será um grande escritor! Procura o original e deseja que um caminhão te atropele por ter esquecido a, em suas palavras, "porra do manuscrito". Sai decepcionado e quase expulso por ele, mas você é brasileiro e não desiste nunca. Antes de voltar pro presente, você vai à biblioteca por dois dias pra usar a máquina de escrever. Puxa tudo o que consegue de memória. No terceiro dia você invade o quarto dele enquanto ele janta com os pais e enfia a sua versão manuscrita embaixo do travesseiro.

Quando volta pro presente, tudo normal. Suas três edições diferentes de São veias abertas no céu noturno ou galáxias?, de Vinícius Dumont, estão lá.

E assim se dá um exemplo do paradoxo do bootstrap. Muito queridinho dos fãs de ficção científica, principalmente dos amantes de viagens no tempo.

Abaixo listamos 9 vezes que o paradoxo de bootstrap fez nossos queixos caírem.

ALERTA DE SPOILER

1. Doctor Who (2015), temporada 9 episódio 4, "Before the Flood"

Esse episódio é legal, porque ele começa com metalinguagem e a quebra da quarta parede. Antes do episódio começar de fato, o décimo segundo Doutor olha pra câmera e dedilha a Quinta Sinfonia de Beethoven numa guitarra enquanto explica o próprio paradoxo de bootstrap. Ele descreve um fã que viaja no tempo pra conhecer o compositor, descobre que ele não existe, e decide publicar as partituras que trouxe do futuro com o nome de Beethoven. A cena fecha com a pergunta que dá o tom da temporada inteira: então quem realmente compôs aquela sinfonia?

2. O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991)

A revolução em inteligência artificial que daria origem ao apocalipse só foi possível porque a Cyberdyne encontrou os restos do primeiro exterminador, o braço metálico e o chip. Aquele Exterminador tinha sido enviado pela própria Skynet do futuro em 1984, e acabou esmagado numa prensa hidráulica. A engenharia reversa do destroço foi o ponto de partida da empresa que viria a criar a Skynet. A inteligência artificial inventou a si mesma a partir de pedaços do próprio cadáver.

3. Interestelar (2014)

Cooper percebe quem são "eles", os seres da quinta dimensão que construíram aquela passagem. São a própria humanidade do futuro. Usando ondas gravitacionais, ele empurra a poeira do chão e escreve em código binário as coordenadas de uma base secreta da NASA, endereçadas ao próprio eu do passado. Se Cooper não tivesse mandado as coordenadas, ele nunca teria ido ao espaço, nunca teria caído no buraco negro, e nunca teria podido mandar.

4. Em Algum Lugar do Passado (1980)

Em 1972, uma senhora idosa misteriosa se aproxima do jovem Richard Collier, coloca um relógio de bolso antigo nas mãos dele e sussurra que ele deve voltar pra ela. Anos depois, Richard viaja mentalmente pra 1912 e encontra a jovem Elise McKenna, a versão da idosa antes da velhice. Entrega a ela o mesmo relógio. O objeto passa a vida inteira com Elise até ela devolvê-lo a Richard em 1972, fechando o ciclo. O relógio nunca foi fabricado por ninguém. Ele apenas circula.

5. Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban (2004)

Depois de voltar no tempo com o Vira-Tempo, Harry fica escondido na margem do Lago Negro observando a si mesmo e Sirius sendo atacados por dementadores. Ele espera que o pai falecido apareça pra conjurar o Patrono que se lembrava de ter visto antes da viagem. Mas ninguém vem. Quando percebe que está prestes a morrer no passado, Harry corre até a margem e conjura ele mesmo o Patrono corpóreo. Ele só consegue executar um feitiço tão difícil porque já tinha certeza absoluta de que conseguiria. A certeza vinha de ter visto a si mesmo fazendo aquilo antes.

6. LOST (2009), temporada 5 episódio 3, "Jughead"

Após os pulos temporais que arremessam os sobreviventes pelo passado e futuro da ilha, John Locke se encontra com Richard Alpert em 1954. Pra provar a Richard que vai voltar a encontrá-lo no futuro e que ele deve esperar por isso, Locke entrega ao outro uma bússola antiga. Richard guarda o objeto pelos cinquenta anos seguintes. Em 2007, durante outro pulo temporal, Richard devolve a mesma bússola pro Locke. Locke carrega o objeto consigo no próximo pulo, vai parar em 1954, e entrega a bússola pro Richard. A bússola nunca foi comprada, nunca foi fabricada, nunca teve origem. A cada volta do ciclo ela enferruja um pouco mais.

7. Timecrimes (Los Cronocrímenes, 2007)

Hector vê pelo binóculo uma jovem se despindo num matagal próximo de casa, vai investigar, e é atacado por um homem com a cabeça enrolada em bandagens ensanguentadas. Foge desesperado pra uma instalação científica próxima, onde um cientista o esconde dentro de uma máquina do tempo. Hector reaparece cerca de uma hora antes, e enxerga a si mesmo no passado olhando pelo binóculo. Pra preservar o curso dos acontecimentos e impedir o paradoxo, ele precisa se tornar o homem da bandagem que atacou o próprio eu mais cedo. Hector enrola a cabeça num pano ensanguentado e cumpre o papel. A identidade do homem da bandagem só existe porque o protagonista a viu e foi investigar. Nasce dentro do loop, sem origem fora dele.

8. O Predestinado (2014)

Um agente temporal encurrala o terrorista Fizzle Bomber numa lavanderia em 1975. Descobre que o terrorista é, na verdade, ele mesmo no futuro, enlouquecido pelo excesso de viagens no tempo. O filme revela então o resto da história: o agente é um homem intersexo que, quando ainda era biologicamente mulher, engravidou a si mesmo no passado. Roubou o próprio bebê do hospital e o deixou em outro ponto do tempo pra crescer e virar ele mesmo. Ao matar a versão futura ali na lavanderia, garante que o ciclo continue intacto. Ele é, ao mesmo tempo, sua mãe, seu pai, sua filha, seu inimigo e a vítima do próprio crime.

Nem todas as obras acima são sci-fi, claro, mas com certeza este tema está no centro de muita roda de conversa de amantes da área. Se você chegou até aqui, conta pra gente se seu paradoxo de bootstrap favorito tá na lista. E se não tiver, qual é?


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