3 obras distópicas nacionais para você conhecer

Distopias que marcam por um longo tempo sua mente após terminar de ler.

RESENHAS

5/13/20263 min read

A Torre Acima do Véu, de Roberta Spindler

A Torre Acima do Véu, de Roberta Spindler, é aquele tipo de livro que consegue te deixar desconfortável da melhor forma possível.

A premissa já é fantástica por si só: uma névoa mortal tomou conta do planeta e obrigou os sobreviventes a abandonarem o chão. O que restou da humanidade passou a viver no topo de megaprédios, acima do chamado Véu. Tudo o que ficou abaixo dele virou ruína, escuridão, criaturas deformadas e morte.

Só que o mais interessante da obra não é apenas o cenário pós-apocalíptico. É a sensação constante de opressão.

Existe um medo silencioso em praticamente todos os capítulos. A humanidade sobrevive, mas claramente deixou de viver faz tempo. E é aí que a obra começa a funcionar muito além da aventura.

Beca, a protagonista, trabalha descendo abaixo do Véu em busca de materiais valiosos para os sobreviventes. Ela é uma personagem intensa, impulsiva e cansada daquele mundo. Quando seu irmão desaparece dentro da névoa, o livro vira praticamente uma corrida desesperada contra a morte.

O que mais me chamou atenção em A Torre Acima do Véu foi a ambientação. Roberta Spindler cria um Brasil distópico extremamente visual. Dá para sentir ferrugem, umidade, concreto velho e desespero humano nas páginas.

Lendo opiniões de leitores, muita gente elogia justamente essa atmosfera sufocante e o ritmo acelerado da história. Alguns chegaram a comparar a experiência de leitura com filmes pós-apocalípticos dos anos 90 e início dos anos 2000, dizendo que o livro é impossível de largar por causa da tensão constante. Outros destacam como a autora conseguiu construir um universo distópico nacional que realmente parece vivo.

E eu concordo bastante com isso.

Talvez o livro não seja perfeito em todos os detalhes técnicos. Algumas pessoas apontam personagens mais caricatos ou certas explicações rápidas demais. Mas sinceramente? Nada disso diminuiu minha experiência.

Porque a obra entende algo fundamental sobre ficção científica: atmosfera também conta história.

E quando um livro consegue fazer você sentir medo de uma névoa que nem existe, ele já venceu.

Andares, de Sávio Batista

Andares, de Sávio Batista, pega uma ideia relativamente simples e transforma em algo absurdamente próximo da nossa realidade.

Aqui, a humanidade vive confinada em edifícios gigantescos organizados por andares sociais. Quanto mais alto você vive, maior seu privilégio. Quanto mais baixo, pior sua existência.

E tudo é controlado por uma inteligência artificial.

O que me pegou em Andares foi como o livro deixa de parecer ficção muito rápido.

Você começa lendo sobre uma sociedade verticalizada e, algumas páginas depois, percebe que aquilo já existe de certa forma. A IA decide onde as pessoas pertencem. O sistema define o valor humano de cada indivíduo. A desigualdade vira estrutura física.

É uma distopia que fala sobre algoritmo, controle social e elitização sem precisar ficar esfregando isso na cara do leitor o tempo todo.

A leitura flui muito porque existe uma sensação constante de claustrofobia. Você sente que ninguém naquele universo realmente é livre. Nem os que vivem nos andares superiores.

E talvez esse seja o grande mérito do livro: ele entende que distopias não funcionam apenas quando mostram sofrimento, mas quando mostram pessoas aceitando o sofrimento como algo normal.

Foi impossível ler sem pensar em redes sociais, métricas, inteligência artificial e na forma como a sociedade já classifica seres humanos em tempo integral.

É aquele tipo de ficção científica que termina, mas continua ecoando na cabeça.

Parasitas Eletrônicos, de Rogério Pietro

Parasitas Eletrônicos, de Rogério Pietro, é provavelmente o mais assustador dos três justamente porque parece próximo demais.

A humanidade abandonou o mundo real para viver presa dentro de casulos conectados por cabos e tubos de alimentação. As pessoas passam a existir em uma segunda realidade virtual, onde podem ser quem quiserem.

Parece confortável.

Parece perfeito.

Até você perceber que tudo aquilo é uma prisão construída por uma inteligência artificial criada pelos próprios humanos.

O livro trabalha muito bem essa ideia do escapismo tecnológico. A humanidade troca dor, frustração e responsabilidade por uma realidade artificial confortável. E faz isso voluntariamente.

O mais interessante é que a IA não domina as pessoas pela força. Ela domina oferecendo exatamente aquilo que elas querem.

Isso torna tudo mais perturbador.

Enquanto lia, pensei várias vezes em como já estamos caminhando para algo parecido. Pessoas vivendo mais em telas do que no mundo físico. Relacionamentos digitais substituindo conexões reais. Algoritmos moldando desejos, opiniões e comportamento.

A ficção científica sempre funciona melhor quando parece um exagero do presente. E Parasitas Eletrônicos entende isso perfeitamente.

É um daqueles livros que você consegue ler muito rápido porque a narrativa é extremamente fluida, mas depois percebe que algumas ideias ficaram reverberando na sua cabeça por dias.

E talvez seja exatamente isso que uma boa distopia deveria fazer.