2063: Estado Artificial: a distopia de Guilherme Rezk que assusta pela proximidade com a realidade

Com apenas 148 páginas, lançamento de ficção científica nacional mistura conspirações políticas, inteligência artificial e violência em uma trama que provoca desconforto não apenas pelo que apresenta, mas pelo quanto se aproxima do mundo em que vivemos.

RESENHAS

Michael Douglas

10/19/20265 min read

Quando começamos a ler uma distopia, especialmente no espectro da ficção científica, já esperamos que aquela realidade seja diferente da nossa, dis-to-pi-ca. Afinal, estamos entrando em um universo que, por mais que dialogue com questões do presente, deveria nos apresentar uma sociedade distante daquela que conhecemos. Então, quando começamos a leitura de um livro que deveria ser distópico, mas que, estranhamente, se parece muito com a nossa realidade, a surpresa e a animação diante de uma história “fantástica” dão lugar ao medo de aquilo se tornar realidade.

Foi assim que me senti ao ler 2063: Estado Artificial, do autor nacional Guilherme Rezk. Mais do que acompanhar uma trama de ficção científica, tive aquela sensação incômoda de reconhecer, em meio a um futuro fictício, problemas que já fazem parte do nosso presente. E talvez seja justamente aí que esteja a força dessa história: não apenas na construção de um universo futurista, mas na capacidade de nos fazer olhar para a nossa própria sociedade com um pouco mais de desconfiança.

Na trama, Vítor Laurentino é um assassino de aluguel que se vê envolvido em uma conspiração violenta que poderá mudar o país. Enquanto trabalha em prol de uma misteriosa vingança relacionada ao passado trágico que o moldou, ele se conecta a Helena, uma de suas potenciais vítimas, e tenta sobreviver em meio ao jogo dos poderosos. Nesse embate, o pastor Matías Tenório, líder da Igreja do Broto, o violento delegado Toni Chaves e a inteligência artificial “Pátria”, do governo, tecem um plano para dizimar os grupos revolucionários que resistem ao poder do Estado: os Tecnologistas, fanáticos que acreditam que a humanidade deveria ser regida pelas IAs, e a Ordem, grupo que combate a presença cada vez maior da tecnologia como aparato de repressão na vida dos brasileiros. Em meio a essa guerra velada, Vítor percebe que é apenas uma marionete em uma trama muito maior, precisando decidir entre a luta ou a fuga.

E uma das primeiras coisas que a história nos leva a debater é justamente a existência desses dois grupos: os Tecnologistas e a Ordem. Distintos e polarizados, eles representam visões opostas de sociedade e dividem a população em lados aparentemente irreconciliáveis. Mas, no fim das contas, quem se beneficia dessa divisão? O governo. Dividir para conquistar. Essa é uma técnica antiga, que funcionou até hoje e que, infelizmente, continuará funcionando. Afinal, quando uma sociedade está ocupada demais lutando contra si mesma, fica muito mais difícil perceber quem realmente está no controle e quais interesses estão sendo protegidos por trás desse conflito.

Outro ponto que merece destaque é a construção de Vítor. Desde o começo, somos apresentados ao seu passado, e é inexplicável a sensação de desconforto ao ler sobre sua infância. São passagens difíceis, que ajudam a compreender como o personagem foi moldado pelas experiências que viveu. Tudo isso faz com que ele pareça vivo dentro da narrativa: passamos a entender suas motivações para a vingança e, ao perceber que está completamente quebrado por dentro, começamos a aceitar que qualquer coisa pode acontecer. Suas escolhas passam a fazer sentido dentro da própria lógica do personagem, ainda que isso não signifique concordar com elas.

O roteiro segue uma linha clara, linear e objetiva, sem perder tempo com desvios desnecessários. Mesmo assim, o autor utiliza flashbacks para construir o background da trama e do universo, acrescentando informações que ajudam a compreender os acontecimentos e as motivações dos personagens. São peças que vão se encaixando ao longo da leitura e que, no final, fazem sentido dentro da história. Essa estrutura também contribui para o ritmo da narrativa, que consegue avançar sem deixar de desenvolver o contexto necessário para que o leitor compreenda o que está em jogo.

E, falando em surpresas, preciso destacar a maneira como o autor conduz os mistérios da trama. Quando lemos uma história que guarda uma revelação para o final, já esperamos que alguma coisa importante seja revelada. O desafio está em fazer isso de uma maneira que realmente nos surpreenda. Em 2063: Estado Artificial, Guilherme Rezk consegue esse efeito não apenas uma, mas pelo menos duas vezes. São revelações que chegam quando não estamos esperando e mudam a maneira como enxergamos determinados acontecimentos. A sensação é estonteante. Eu literalmente levantei as sobrancelhas e falei: “Nossa!”.

Mesmo que a trama seja recheada de ação, explosões e perseguições, o autor encontra espaço para trabalhar diferentes temas sociais. E é aqui que o livro mais me incomodou — no melhor sentido possível. Nesse Rio de Janeiro futurista, existe uma mina que utiliza trabalho escravo infantil. E, mesmo que já existam robôs capazes de realizar esse tipo de trabalho, a justificativa do responsável pela mina é literalmente: “As crianças são mais baratas do que robôs”. Não é de fazer a cabeça coçar e o estômago embrulhar? A frase é brutal justamente porque transforma vidas humanas em uma questão de custo e benefício, como se crianças fossem apenas mais um recurso disponível para exploração.

Qual é o valor de uma vida humana? Como crianças passaram a valer menos do que eletrônicos nessa realidade distópica? São perguntas que surgem naturalmente diante de uma situação como essa, mas que não ficam restritas ao universo do livro. A exploração do trabalho, a desigualdade e a desumanização de pessoas em situação de vulnerabilidade são problemas reais, e é impossível não pensar nisso enquanto acompanhamos os acontecimentos da história. A ficção exagera, projeta e cria cenários, mas, às vezes, o que mais assusta não é o exagero: é reconhecer a lógica que existe por trás dele.

A bem da verdade, esse livro me chocou muito mais pela proximidade com a realidade que já estamos vivendo. Em 2063: Estado Artificial, o governo é teocrático, e o senador mais influente do país também é dono e pastor de uma igreja que arrasta multidões. Por trás dessa influência política e religiosa, o lucro é o objetivo final. A combinação desses elementos torna a leitura especialmente incômoda, porque coloca em evidência a maneira como poder, religião, tecnologia e interesses econômicos podem se misturar para controlar uma população. E, quando pensamos em como essas estruturas já se manifestam no mundo real, fica difícil enxergar a história apenas como uma fantasia sobre um futuro distante.

Se você procura um livro que conseguirá ler de uma vez só, 2063: Estado Artificial com certeza é uma boa dica. Com apenas 146 páginas, Guilherme Rezk entrega uma trama que tem começo, meio e fim, com ação, mistérios e revelações que mantêm o ritmo da leitura, mas que também deixa possibilidades para a expansão desse universo. É uma história curta, mas que consegue abordar temas relevantes sem abandonar o entretenimento, fazendo com que o leitor termine a leitura com muito mais do que a satisfação de ter acompanhado uma boa trama: termina também com algumas perguntas incômodas na cabeça.

Guilherme Rezk é autor nacional de ficção científica e tem outros títulos publicados, como A Condenação da Memória, também pela Editora Flyve. Para quem gosta do gênero e procura conhecer mais a produção nacional, 2063: Estado Artificial é uma leitura que merece atenção, especialmente pela forma como utiliza um futuro fictício para provocar reflexões sobre o presente.

2063: Estado Artificial está disponível para compra no site da Editora Flyve. [Clique aqui para conferir.]

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