1984, com Lázaro Ramos, transforma o clássico de Orwell em uma experiência sonora fantástica e aterrorizante

Lançada em abril de 2025 pela Audible, a adaptação dramatizada do clássico de George Orwell coloca Lázaro Ramos como Winston e transforma Oceania em uma experiência sonora imersiva.

RESENHAS

Michael Douglas

9/24/20263 min read

Algumas histórias parecem encontrar novas formas de assustar a gente conforme o tempo passa. 1984, de George Orwell, é uma delas. Escrito em 1949, o livro continua sendo uma daquelas obras que fazem você terminar a leitura e ficar pensando sobre o que acabou de ler. E existe uma maneira diferente de experimentar essa história: ouvir a adaptação dramatizada produzida pela Audible.

A produção foi lançada em 4 de abril de 2025, uma data bastante simbólica para quem conhece o livro. É justamente nesse dia que Winston começa a escrever em seu diário, registrando seus pensamentos em segredo em uma sociedade onde até pensar diferente pode ser considerado um crime.

Na versão da Audible, Lázaro Ramos interpreta Winston, enquanto Alice Carvalho dá voz a Julia, Mateus Solano interpreta O'Brien e Milhem Cortaz assume a voz do Grande Irmão. E o resultado é muito diferente de simplesmente colocar alguém para narrar o livro.

Aqui, estamos diante de uma produção dramatizada.

Existem vozes diferentes para os personagens, sons ambientes, trilha sonora e uma construção que faz você imaginar aquele mundo enquanto acompanha a história. É quase como assistir a um filme de olhos fechados.

E, para mim, essa é uma das coisas mais interessantes da produção.

Oceania não está apenas sendo descrita. Ela está acontecendo ao redor do ouvinte.

Você escuta os personagens, os ambientes, os anúncios, as movimentações e toda aquela atmosfera opressiva criada por Orwell. A sensação de estar sendo observado, que já é tão importante no livro, ganha uma força diferente quando estamos com os fones de ouvido.

A produção também conta com músicas originais de Matthew Bellamy, vocalista do Muse, e Ilan Eshkeri, executadas pela Orquestra Metropolitana de Londres e gravadas no Abbey Road Studios. A adaptação também está disponível em Dolby Atmos.

E existe uma escolha que pode chamar a atenção de quem já conhece o livro: a relação entre Winston e Julia recebe bastante espaço.

A adaptação pende um pouco mais para o romance entre os dois, mas sem abandonar aquilo que torna 1984 tão importante. A relação não aparece apenas como uma história de amor colocada dentro da distopia. Ela continua ligada ao próprio conflito de Winston contra o sistema.

Em uma sociedade onde o Estado tenta controlar praticamente todos os aspectos da vida, inclusive a intimidade, encontrar alguém com quem dividir seus pensamentos e desejos se transforma em uma forma de resistência.

E isso faz com que o relacionamento dos dois tenha um peso ainda maior.

Mas o que realmente me chamou atenção foi a atmosfera.

1984 já é uma história assustadora no papel. Quando você escuta uma voz dizendo que o Grande Irmão está observando, enquanto outros sons acontecem ao redor, a sensação muda. O livro permite que você imagine aquele mundo. A adaptação coloca esse mundo dentro dos seus ouvidos.

A produção é fantástica e, ao mesmo tempo, aterrorizante.

E acho que essa combinação funciona justamente porque 1984 não precisa de monstros ou criaturas para causar medo. O horror está na possibilidade de perder a liberdade, a memória, a privacidade e até mesmo a capacidade de dizer que algo é verdade.

Foi isso que me fez pensar novamente sobre o livro enquanto escutava a adaptação. Orwell escreveu essa história décadas antes das redes sociais, dos smartphones e da quantidade absurda de informações que recebemos diariamente. Mesmo assim, algumas das discussões presentes na obra continuam encontrando espaço no nosso cotidiano.

A Audible não transforma 1984 em uma história diferente. Ela pega aquele mundo que Orwell criou e encontra outra maneira de apresentá-lo.

E para quem já leu, vale a experiência justamente por isso. Você conhece a história, sabe para onde algumas coisas estão caminhando, mas agora pode ouvir Oceania ganhando vida.

Para quem ainda não leu, também pode ser uma porta de entrada.

Então, se você gosta de ficção científica, distopias ou simplesmente tem curiosidade de conhecer um dos grandes clássicos da literatura, minha indicação é colocar os fones e dar uma chance para essa adaptação.

Só esteja preparado: entrar na Oceania pela Audible pode ser uma experiência fantástica.

E aterrorizante.

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